Arte para comemorar o cinquentenário da TAUC (1938)

José Antunes Videira, aluno de direito na UC entre 1926/1927 e 1930/1931(33?), foi violinista da Tuna, e um antigo estudante dedicado e apaixonado pela sua Coimbra e pela sua adorada Tuna Académica de Coimbra. No ano das comemorações do centenário da TAUC (1988), enviou vários trabalhos artísticos emoldurados (por ex. pinturas em azulejo, pratos, alem de fotografias e recortes, etc), que ainda hoje ornamentam as salas da TAUC.(1)

Eu e a Ana Amélia, enquanto elementos da direcção da TAUC, estabelecemos contacto telefónico com ele aproximadamente em 1996. Já idoso e quase a perder a visão, enviou-nos cartas muito afectuosas escritas sobre linhas rectas, que alguém traçava nas folhas com marcador de ponta grossa, para lhe servirem de guia.

Participou na digressão que a TAUC fez à Madeira e aos Açores no ano lectivo de 1934/1935 (segundo nota do cartão, já licenciado). Em Junho de 1938 fez este monumental desenho a tinta da china com as caricaturas dos companheiros, recordando essa viagem de barco (2). É uma impressionante obra de arte, feita sobre folhas de papel cavalinho coladas (3), lado a lado, sobre um cartão de 92 por 105 cm.

Trabalho de José Antunes Videira (Quadro TAUC)

Quadro a tinta da china da autoria de José Antunes Videira. Dimensões: 92 x 105 cm. Arquivo da TAUC. Oferecido em 1938 assinalando o cinquentenário da TAUC.

Em Junho de 1938, José Antunes Videira escreveu, na obra, a seguinte dedicatória:

«PRÓ CINQVENTENÁRIO DA TVNA | MEV TRIBVTO»

À TVNA ACADÉMICA DE COIMBRA
AO DR. RAPOSO MARQVES 
- CONTINVADOR de ARROYO - JOYCE E ELIAS D'AGUIAR -
DEDICA José VIDEIRA
Saudosa lembrança dos Bons Tempos de Coimbra
JVNHO - XXXVIII

Saudosa e reconhecidamente aqui recordamos o Dr. José Antunes Videira, que nunca esqueceu a sua TUNA e teve a alegria de enviar os seus tributos e recordações, por ocasião do cinquentenário e do centenário.

Jose_Antunes_Videira

Pintura em azulejo da autoria do Dr. José Antunes Videira, oferecida à TAUC pelo autor. Obra assinada e datada 3 de Outubro de 1990.

Adamo Caetano, 29 de Julho de 2020

(1) Alguns dos seus trabalhos podem também ser encontrados na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra e no Museu Académico de Coimbra.
(2) Carvalho Araújo (1930-1973) foi um navio de transporte misto (passageiros e carga) da Empresa Insulana de Navegação.
(3) Será que a isto devemos chamar “andar aos papéis”, para colá-los lado a lado, e assinalar artisticamente os 50 anos da TAUC?
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Andar à nora em pleno século XXI

Caros Tunos,

volto a fazer mais uma breve referência a um texto que teima em “elogiar” o seu autor. O texto foi jogado na internet, em Julho de 2015, sob a forma de post e, na minha, muito tranquila, opinião, é um acinte para a TAUC mas, apesar disso, nunca foi alvo de uma acção legal (por danos morais, ofensa dos bens de ordem moral, injúria, difamação, atentado ao bom nome da TAUC e danos na sua imagem).

Todo o arrazoado gira à volta da data de fundação da TAUC.

Texto em Julho de 2015  (1)

Recentemente (em Janeiro de 2020) o autor alterou o post. Assim, «no que concerne à ideia milhares de vezes repetida de que a TAUC foi fundada em 1888» (ideia!?) a redacção passou de «equívoco relevante» para «possível equívoco»…

Texto em Janeiro de 2020

E o parágrafo onde referia: «falta de outras fontes»; «fazendo lei o que a TAUC dizia» e «confirmação externa que pudesse aferir de modo imparcial as fontes», foi apagado. Consequentemente, retirem as Vossas próprias conclusões.

Sobre os erros muito graves que o texto contém já tive oportunidade de fazer revelações que têm direitos de autor e requerem protecção. Agora, nesta breve referência, vou focar a atenção em apenas um pormenor referido nesse tal post: a data de comemoração do 50.º aniversário da TAUC.

«Por que razão, os tunos da TAUC, em 1940, apontaram para o ano de 1890?» ??

«Esta flutuabilidade de datas reforça a ideia de que, nos anos 40, já se andava “aos papéis” por falta de confirmação dos papéis (leia-se fontes fidedignas e documentais).» ??

A explicação é muito simples: A TAUC comemorou o seu cinquentenário (1888/89 a 1938/1939) com 1 ano de atraso (no ano lectivo de 1939/1940), em Abril de 1940.

As comemorações inicialmente programadas para dia 23 de Maio de 1939 não se realizaram nessa data e foram sendo sucessivamente adiadas (Dezembro de 1939; Janeiro de 1940). Eis uma prova documental(2):

“Diário de Coimbra”, Coimbra, Ano IX, n.º 2924, Quarta-feira, 3 de Maio de 1939, p. 2

Tuna Académica da Universidade de Coimbra

«Reuniu ontem a Direcção da Tuna Académica da Universidade de Coimbra para tratar da comemoração do cinquentenário da sua fundação.
Foi escolhido para aquele efeito o dia 23 de Maio [de 1939], e, do programa, de que brevemente daremos notícia mais detalhada, constam as seguintes solenidades: Missa por alma dos tunos falecidos, sendo celebrante S. Ex.a a Rev.ma o sr. Bispo Conde; um espectáculo de beneficência; uma conferência comemorativa e imposição das insígnias de comendador de benemerência à Tuna.»

As comemorações acabaram por acontecer no ano seguinte, no dia 22 de Abril de 1940 (3):

Correio de Coimbra, ano XIX, n.º921, 27 de Abril de 1940

Como refere a notícia: «Na sala da Tuna, na Associação Académica, foi descerrado o retrato do Dr. Simões Barbas, fundador da Tuna e compositor de grandes recursos».

Façam o favor de observar o que foi gravado, a dourado, na fotografia.

Dr. Simões Barbas | Fundador e Regente | da Tuna Académica da Universidade de Coimbra 1888.

Este retrato foi descerrado pela filha do Dr. Simões Barbas, Irene Dória, no salão nobre da Tuna, no dia 23 de Abril de 1940.

O despertar, ano XXIV, n.º 2348, 24 de Abril de 1940

No dia 27 de Janeiro de 1940 a Tuna actuou em Faro (4) e nessa data, um tuno de 1888, António Maria Fructuoso da Silva (que fez parte da Tuna até 1894/1895), ofereceu à TAUC a fotografia da Estudantina Académica de Coimbra de 1888 emoldurada e com a seguinte dedicatória:

«À actual Tuna Académica de Coimbra e ao seu Insigne Regente
Dr. Raposo Marques com muita admiração
oferece
o violino mais novo da primitiva - hoje com 71 anos,
Antonio Maria Fructuoso da Silva»
(1940)

Reprodução da fotografia de 1888 colada sobre cartão contendo a chave de identificação manuscrita, com menção dos cargos, etc. e com dedicatória. A reprodução foi feita em Loulé, em 1940, pelo fotógrafo Joaquim Nogueira, e encomendada por António Maria Fructuoso da Silva (violinista n.º 6) que nesse ano a ofereceu à TAUC. Tinha moldura e figurou nas exposições organizadas no M.A.C., nos anos 50 (1954), por António José Soares/TAUC.

Isto parece-nos mais do que suficiente para demonstrar que a afirmação de que os elementos da TAUC de 1940 “andavam aos papéis” por falta de fontes documentais fidedignas, é tão ridícula que até inspira dó (e tinham, além disso, testemunhos vivos de 1888), mas o “azar” do autor não finda aqui porque o recorte escolhido revela-nos algo ainda mais interessante.

Notícias de Coimbra, ano 5, n.º 169, 12 de Abril de 1940, pag. 5

O Dr. José Rodrigues de Oliveira (Freguesia de S. Christovão, Coimbra, 11 de Março 1873 – Coimbra, 18 de Agosto 1928), que falecera 12 anos antes, ainda era recordado como elemento da Tuna Académica, nesse artigo do Notícias de Coimbra, redigido provavelmente pelo Dr. Rocha Manso seu conterrâneo, condiscípulo, companheiro da Tuna e amigo.

José Rodrigues de Oliveira, matriculou-se na Universidade de Coimbra no ano lectivo de 1888/1889 (tinha 15 anos) e concluiu o curso de medicina em 1896/97. Aprendeu a tocar viola desde miúdo e, enquanto estudante, integrou a Tuna Académica. A sua presença ficou documentada nas fotografias de grupo de 1894 e 1895, tocando um violão de 7 cordas, do violeiro conimbricense Augusto Nunes dos Santos, e envergando uma fita da cor da sua faculdade (medicina, amarelo) atada em laço e aplicada sobre o ombro direito, como era costume da Tuna naqueles anos.

José Rodrigues de Oliveira nas fotografias de conjunto da Tuna 1894 e 1895

Considerando que era natural de Coimbra e entrou na Universidade em 1888/1889, era expectável que, sendo bom executante, tivesse integrado a Tuna ainda antes de 1894 . Em Abril de 1891, um conjunto de elementos da estudantina de Coimbra foi a Salamanca tocar a favor dos homisiados que resultaram da revolução falhada de 31 de Janeiro no Porto.  A meio do programa da estudantina, um duo de guitarristas interpreta alguns temas (5) de difícil execução. Quem são esses guitarristas? Simões Barbas e Rodrigues de Oliveira (fonte online).

Ou seja, o autor não poderia ter escolhido exemplo mais desfavorável em relação ao que queria colocar em dúvida (a fundação e a continuidade) pois foi precisamente apontar um elemento de continuidade entre as formações da Tuna de 1888 e de 1894, engrossando assim o conjunto de factos documentados que demonstram a origem da TAUC em 1888.

Fica assim demonstrado que os tauquianos de 1940 não andavam aos papéis e, por outro lado, que o autor do post, em pleno século XXI, “anda completamente à nora”.

Com a preciosa colaboração de José Nascimento, António Nascimento e Jorge Resende.

Adamo Caetano, 18 de Julho de 2020

(1) Considerando que o autor do texto se afirma como investigador, há mais de 2 décadas, esse post pejado de erros é uma espécie de bilhete de “suicídio académico”.
(2) José Nascimento recolheu mais de uma centena de artigos com referências ao cinquentenário/Bodas de Ouro da TAUC, publicados ao longo de 1939 e 1940 em 12 periódicos (A voz; Correio de Coimbra; Diário de Coimbra; Diário de Notícias; Gazeta de Coimbra; Jornal de Notícias; Novidades; o Comercio do Porto; O Despertar; O primeiro de Janeiro; O Século, etc)
(3) O sarau comemorativo do cinquentenário da TAUC realizou-se no dia 22 de Abril de 1940, segunda-feira à noite, no Teatro Avenida. Durante a tarde realizou-se o funeral do estudante José Moreira de Meneses e no cortejo funerário participou toda a Academia incluindo os «velhos tunos» que se encontravam em Coimbra para a comemoração do cinquentenário. O programa do Sarau foi de gala. Durante o sarau, disse algumas palavras o antigo tuno Manuel Ferreira da Costa Amador Valente (Oliveira de Azeméis, 13 de Março de 1871 – Oliveira de Azeméis, 5 de Março de 1946) que fez o curso de Direito entre 1890 e 1896 e integrou a Tuna como actor, elemento do Grupo Dramático.

47 anos, ano lectivo de 1892/1893. Novidades (Coimbra), ano LV, n.º 14200, 24 de Abril de 1940

Também está documentado, nos jornais, que a direcção da TAUC de 1939/1940 mobilizou os «velhos tunos», e em particular os que residiam em Coimbra, para colaborarem no sarau, ou seja, os tunos de 1940 nem precisavam de papéis pois tinham MEMÓRIA VIVA.

“Diário de Coimbra”, Coimbra, Ano X, n.º 3257, Domingo, 7 de Abril de 1940 pag. 1

Programa do Sarau. Fonte: “Diário de Coimbra”, Coimbra, Ano X, nº 3274, 4ª feira, 24 de Abril de 1940 pag. 1 (segue abaixo a transcrição)

“Diário de Coimbra”, Coimbra, Ano X, nº 3274, 4ª feira, 24 de Abril de 1940 pag. 1
Cinquentenário da Tuna Académica
«O sarau de gala no Teatro Avenida, que terminou depois da uma hora da madrugada de ontem, decorreu sempre no meio de maior entusiasmo.
Conforme o programa, a festa começou pelo discurso do sr. dr. Angelo Cesar, que este ilustre deputado da Nação pronunciou com grande elequência, referindo-se à Tuna Académica na sua tradição, aos seus triunfos, entre os quais o da viagem ao Brasil, onde a Tuna foi recebida por portugueses e brasileiros de tal forma que não se lembra de ter assistido a uma manifestação tão importante como a que ali foi dispensada aos estudantes da Universidade de Coimbra.
O orador referiu-se em seguida a Coimbra, num verdadeiro hino de amor e saudade, passando em revista todos os seus encantos, a sua Universidade, a sua Academia, a maravilha da sua paisagem.
Ao terminar, o dr. Angelo Cesar recebeu da assistência uma formidável ovação.
Sob a regencia do professor senhor Raposo Marques, que foi muito aplaudido, a Tuna, depois de ter tocado o hino nacional, executou com muito brilho as seguintes esplendidas composições: «Adieu», de Schubert; «Serenata», de Raposo Marques; «Bailarico», do mesmo; «Chanson de Solvejg», de Grieg; «Momento Musical», de Schubert.
Depois apareceu no palco um lindíssimo quadro: as crianças do Asilo da Infância Desvalida, obra grandiosa do Prof. Elisio de Moura, em número de 200, algumas de 5 anos de idade, que cantaram lindíssimas canções.
A plateia, entusiasmada, aclamou durante largo tempo as criancinhas e o nome do Dr. Elisio de Moura.
Ouviu-se depois, nas vibrações melodiosas e sentidas da sua guitarra, Artur Paredes, acompanhado pelo dr. Alexandre Sá Carneiro e outros, o que consistiu num dos mais brilhantes números do sarau.
O sr. dr. Amador Valente, antigo tuno, disse algumas palavras de saudade do seu tempo de estudante, há 48 anos, e recitou algumas poesias dêsse tempo, entre elas uma do dr. Francisco Bastos, que foi muito apreciada.
Exibiram-se depois ainda os seguintes números:
Guitarradas Hawaianas, Solos de Acordeon, Valsa Mãi (Bailado cómico), Solos de Piano, Solos de Violino, O Melro (Paródia em verso), Orquestra Zingara, Orquestra de Harmónicas, Orquestra de Tangos, Guitarradas por Artur Paredes, Fados pelo estudante Jorge Gouveia.»
Os festejos do cinquentenário estiveram marcados para os dias 21 e 22 de Janeiro de 1940 mas mais uma vez foram adiados. O programa nessa data contava com participações dos Dr.s Sobral Cid e Egas Moniz (ambos foram presidentes da Tuna) e de «elementos que fizeram parte da tuna em 1888 a 1902».

Novidades n.º 14.077 19 de Dezembro de 1939 pag. 5 (segue abaixo a transcrição)

Novidades n.º 14.077 19 de Dezembro de 1939 pag. 5
TUNA ACADÉMICA
É nos dias 21 e 22 de Janeiro que a Tuna Académica festeja o seu 50º aniversário.
No dia 21 – às 12 horas – recepção na direcção da Tuna Académica aos vélhos sócios, que acorreram a inscrever-se nas comemorações, manifestando assim a sua dívida de gratidão.
Às 16 horas – sessão solene na Sala dos Capelos para a imposição pelo sr. Ministro da Educação Nacional, das insignias «Comendador da Ordem da Benemerencia», concediddas pelo st. Presidente da República.
A oração de sapiência será proferida pelo sr. dr. Sobral Cid.
Às 18 horas – visita do Asilo da Infância Desvalida, onde a Tuna executará alguns números dedicados às criancinhas.
Às 21 horas – Sessão solene no Salão Nobre da Tuna para descerramento do retrato do sr. dr. Simões Barbas, seu fundador.
Dia 22 – Às 10 horas – Missa na Capela da Universidade por alma dos sócios falecidos, onde o Orfeon Académico, que gentilmente se associou à festa, cantará alguns coros religiosos.
Às 13 horas – Almôço de confraternização entre novos e vélhos sócios, que dessa maneira revivem fugazmente a sua mocidade.
Às 21 horas – Espectáculo no Teatro Avenida, em que, por alvitre de vélhos sócios serão executados números por elementos que fizeram parte da tuna em 1888 a 1902.
O espectáculo abrirá com uma oração proferida pelo professor sr. dr. Egas Moniz.
Abrilhantará o espectáculo o vélho guitarrista Paredes.
Após o espectáculo, haverá uma serenata pelos srs. Drs. Paradela e Armando Góis.
(4) O espectáculo em Faro aconteceu integrado numa digressão artística pelo Alentejo e Algarve.  (ver também “Diário de Coimbra”, Coimbra, Ano X, nº 3191, 3ª feira, 30 de Janeiro de 1940 pag. 2.)

Novidades, n.º 14.081, 23 de Dezembro de 1939

(5) Segunda parte (por dos guitarras). – Moraima. – Tuya, mazurca de Penella, Simões. – Sou vienstoy, tanda de walses de Waldteufeld, Simões. Fonte online.
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Teve início a intervenção na bandeira de 1888

Caros Tunos,

é com alegria que vos anuncio o início dos trabalhos!

A velhinha bandeira da Estudantina Conimbricense,  da Estudantina Académica de 1888, da Tuna Académica, da Tuna Coimbrã, da antiga tuna, da 1ª e da 2ª, das formações de 1888, 1892, 1893, 1894, 1896 … (OK YOU GET THE PICTURE!) e ao serviço até 1927, está agora a ser acariciada por mãos de fada!

Vamos ver as suas cores como há muito tempo ninguém vê!

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Arquivo da TAUC cria Centro de Explicações

A Tuna não tem de provar nada! Certo! mas pediram-me para explicar e até parece que tenho obrigação de o fazer (not). Faço notar que eu luto contra a ignorância e muito em particular contra a minha. Note-se que eu não gozo com a ignorância dos outros.
O mundo está cheio de tolices e eu não tenho ambição de acabar com todas elas, mas aqui fica, um de vários contributos, para acabar com estas “figuras tristes”…

Em Abril de 1940, com o mundo a viver a 2.ª guerra mundial, a Tuna estava a comemorar o seu cinquentenário (1888/89 a 1938/1939) com 1 ano de atraso (no ano lectivo de 1939/1940). O Dr. José Rodrigues de Oliveira falecera 12 anos antes mas ainda era recordado como elemento da Tuna Académica, num artigo do Notícias de Coimbra, redigido provavelmente pelo Dr. Rocha Manso seu conterrâneo, condiscípulo, companheiro da Tuna e amigo.

Façam o favor de ler este apontamento com atenção para eu não ter de me cansar muito a explicar aritmética. Se detectarem erros ortográficos ou outros, por favor avisem-me que eu prontamente corrigirei!

Muito grato!

A. Caetano

E a propósito: A afirmação de que os elementos da TAUC de 1940 “andavam aos papéis” por falta de fontes documentais é tão ridícula que até inspira dó. Em 1940 estavam vivos elementos da Tuna de 1888. Um deles (que também fez parte da Tuna em 1894), precisamente em 1940, ofereceu à Tuna a fotografia de 1888, emoldurada, com a seguinte dedicatória:

«À actual Tuna Académica de Coimbra e ao seu Insigne Regente
Dr. Raposo Marques com muita admiração
oferece
o violino mais novo da primitiva - hoje com 71 anos,
Antonio Maria Fructuoso da Silva»
(1940)

Ver este apontamento sobre Antonio Maria Fructuoso da Silva!

 

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Para um QUIZ tauquiano

Inicialmente feito a pensar nos caloirinhos da TAUC, partilho agora com todos Vós, caros Tauquianos TT, este “quiz”. São respostas curtas mas originais e levantam subtilmente o véu sobre aspectos que têm intrigado várias pessoas.

Para quem não sabe, em 2015 fui “violentamente desafiado” pelos irmãos Nascimento a encontrar respostas para um leque de perguntas e provar, para além da dúvida, que a TAUC nasceu em 1888. Um pequeno grupo de carolas, agrupado sob a designação de Arquivo Digital da TAUC, conseguiu reunir e integrar informação (fontes documentais, memória viva) que não só confirma a narrativa histórica oral como acrescenta uma dimensão que está para além da imaginação. Tem sido um percurso exigente mas muito divertido. A minha missão, porque nunca aceitei outra, tem sido unicamente contribuir com apontamentos para a História desta instituição sui generis, a Tuna Académica da Universidade de Coimbra. Com esforço e sacrifícios mas também com alegria e satisfação, acredito que vou cumprido o meu dever (de sócio com responsabilidades acrescidas): afirmar a identidade da TAUC e defender a sua memória e património.

É evidente que a malta insiste, e bem, na publicação da informação mas nós não somos profissionais nem fazemos carreira académica na área, não temos nem sentimos qualquer exigência ou pressão para publicar. Além disso é manifesto o nosso desinteresse por “tunas” (não é por parvoíce ou arrogância, é simplesmente assim) e a História da TAUC, que é o foco do nosso interesse e que tem uma filogenia e génese muito própria, representa por si só um oceano inesgotável de trabalho…

Agradecendo a todos os que colaboram connosco, aqui fica o QUIZ tauquiano.

A. Caetano

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TAUC em renovado ciclo de valorização patrimonial

Em renovado ciclo de valorização patrimonial, a TAUC aposta na preservação de documentos e símbolos que fazem parte da sua identidade histórica.

A primeira bandeira da TAUC é mais do que uma simples relíquia, ela é um elemento central da nossa identidade. Esta bandeira foi bordada em 1888 por Maria Henriqueta de Menezes Correia Pinto Mourão com a ajuda das suas irmãs. Maria Mourão era a noiva de Arthur Pinto da Rocha, um brasileiro, estudante de direito na Universidade de Coimbra, que no ano lectivo de 1888/1889 foi o primeiro presidente da Estudantina Conimbricense.

A bandeira foi estreada no dia 1 de Dezembro de 1888, em Coimbra, e manteve-se ao serviço d’A TUNA até 1927. Durante quase 40 anos no activo, passou pelas mãos de muitos estudantes conhecidos como, por exemplo, Augusto Hylario da Costa Alves.

Gazeta Nacional. Coimbra, 7 Março 1894, Ano 3, Nº 234, pag. 2

Arthur Pinto da Rocha concluiu o curso de Direito no dia 28 de Junho de 1890 e no dia seguinte casou com Maria Mourão, na Sé Nova de Coimbra. Depois de uma lua de mel, por terras portuguesas, abalaram para o Brasil. Pinto da Rocha voltaria a encontrar-se com a sua Tuna em 1912, em Beja, por ocasião de uma visita que fez a Portugal; e em 1925, no Rio de Janeiro, quando a Tuna fez uma memorável viagem ao Brasil. Nessa data, Arthur Pinto da Rocha integrou a Comissão de Recepção que se constituiu no Rio de Janeiro e assumiu protagonismo em discursos e artigos publicados nos jornais. Num artigo publicado no Jornal do Brasil, no dia 22 de Agosto de 1925, recordou a sua vida académica e registou esta informação sobre a histórica bandeira: «os bordados (…) foram trabalhados delicadamente por minha esposa e minhas cunhadas».

Esta bandeira esfrangalhada, testemunho do carinho que tanta gente dedicou à TAUC, repousa há muitas décadas dentro de um móvel especialmente construído para a guardar.

Bandeira de 1888 no seu móvel-relicário com vitrina. Sala museu da TAUC. Fotografia de 2015.

Sobre ela já muito foi escrito ao longo de quase 132 anos!

«A BANDEIRA HISTÓRICA E TRADICIONAL DA TUNA ACADÉMICA DE COIMBRA, QUE DURANTE DEZENAS DE ANOS TEM ACOMPANHADO, NAS SUAS DIGRESSÕES ARTÍSTICAS, TANTAS GERAÇÕES ACADÉMICAS.
TROFEU DE SAUDADES, É SEM DÚVIDA O MAIS COMOVIDO ESTANDARTE ACADÉMICO PORTUGUEZ»

Fonte: O Século, Ano 42, n.º 4.444, 28 de Abril de 1922

Fotografia da bandeira de 1888, documentando o estado em que se encontrava em 1922. A fotografia foi oferecida pelo presidente da TAUC do ano de 1921-1922, Alexandre Metelo de Napoles Machado.

«O espírito académico de Coimbra na sua estouvada boémia, é em geral avesso à ordem. (…) Mas a história da Tuna Académica de Coimbra está na sua bandeira! Ela sintetisa todos os troféus e todos os documentos!»

Fonte: Estudantes de Coimbra no Brasil: descrição da viagem ao Brasil da Tuna Académica da Universidade de Coimbra em Agosto de 1925: ilustrado com 67 gravuras. Manuel da Câmara Leite (1926).

No dia 26 de Junho de 2020, abrimos o nosso relicário e retirámos a velhinha bandeira que vai agora ser submetida a uma longa e complexa intervenção técnica. Principais objectivos: higienizar e estabilizar os materiais têxteis, a fim de os preservar, e melhorar a leitura do objecto que, dentro de alguns meses, voltará a estar em exibição na sala museu da TAUC.

A. Caetano, 28 de Junho de 2020

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Insistindo na VERDADÉK :)

Quase 1 ano depois, a 6ª epístola aos Tunos TT continua actual:

#6 A VERDADÉK (a verdade-é-que)

Jayme Constantino Fernandes Leal entrou em Direito no ano lectivo de 1890/91. Em 1893/1894 “reorganizou-se” a Tuna Académica (que até mesmo em 1897 ainda aparecia como «estudantina»).

Dicas importantes:

1) em 1893/1894 Jayme Leal é “apenas” um boémio entusiasta e endinheirado que ajuda a sustentar financeiramente o grupo (não toca qualquer instrumento nem faz parte do grupo dramático, torna-se o porta-bandeira). Simões Barbas, José Cochofel e outros, são, eles sim, centrais na estrutura artística, etc;

2) dizer que a Tuna de 1894 é díspar da Tuna de 1888 é um ERRO grosseiro;

3) dizer ou escrever que não houve continuidade, é um enorme disparate e revelador de soberba ignorância de tudo o que aconteceu entre 1890 e 1892 (Note-se que foram os fundadores de 1888 que afirmaram a continuidade!);

4) os estudantes do liceu de Coimbra (que esteve integrado na UC) e os estudantes da Universidade, eram designados de “académicos” (a expressão «estudante universitário» não existia em 1888). Em 1892 e 1893 não foi o Jayme Leal sozinho, mas sim um grupo de tunos de 1888, que tentou reagrupar, depois de o Governo da altura ter dissolvido tudo o que era associação politicamente republicana, como era (e continuou a ser) a Tuna de Coimbra. Jayme Leal e os camaradas não queriam um grupo só de “estudantes universitários”, sem liceais!!! isso é outro ERRO! Um equívoco!
Explicação: A Tuna Infante da Câmara (também obviamente republicana) que se constituiu em 1891 e ainda coexistiu com a Tuna de 1893/1894, congregava Tunos de 1888 e operários (republicanos), e isso é que não caía bem entre alguns académicos de então, daí aquela frase retrospectiva de 1901: «Corria o ano de 1894 e o boémio Jayme Leal fazia despertar num grupo de rapazes alegres e joviais a simpática ideia da formação de uma Tuna exclusivamente composta de académicos.» ou seja, SEM FUTRICAS!!!

Será que agora fui claro?!? Está entendido!? Desejam documentos?!

Abrações!

A. Caetano, 27 de Junho de 2020

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A bandeira velhinha de 1888

Eis o dia EXTRAORDINÁRIO ó gentes de Portugal… 

Quase 132 anos depois, aqui está o que sobra da velhinha bandeira da Estudantina Conimbricense, estreada no dia 1 de Dezembro de 1888, em Coimbra, e que se manteve “no activo”, ao serviço d’A TUNA, até 1927. A primeira bandeira da TAUC é mais do que uma simples relíquia, ela é um elemento central da nossa identidade. Esta bandeira  esfrangalhada, testemunho do carinho que tanta gente dedicou à TAUC, repousa há muitas décadas dentro de um móvel especialmente construído para a guardar, e hoje, dia 26 de Junho de 2020, finalmente saiu da sua redoma protectora para uma longa e complexa intervenção técnica especializada. Principais objectivos: higienizar e estabilizar os materiais têxteis, a fim de os preservar, e melhorar a leitura do objecto.

Abertura do móvel. Adamo Caetano, Paulo Lopes (presidente da direcção) e Fernando Meireles.

No âmbito de um esforço de investigação que tem por objectivo conhecer e documentar, com rigor, o percurso histórico desta instituição e divulgá-lo aos tunos, em particular, e ao público, em geral, a histórica bandeira da TAUC tem sido, desde 2015, objecto de renovado interesse.

No site da TAUC e no blog «Guitarra de Coimbra», tem sido divulgada, nestes últimos anos, alguma da informação sobre este símbolo:

A Bandeira da Estudantina 1888 / TAC 1896 / TAUC 1910

As bandeiras da TAUC

A Estudantina de 1888 por Arthur Pinto da Rocha, em 1925

Estórias que a bandeira da [Estudantina]/TAUC conta

A atenção que as várias gerações de estudantes de Coimbra deram a esta relíquia e ao seu valor simbólico fica evidenciada em algumas das afirmações que foram feitas ao longo dos anos e que estão reunidas nestes escritos.

A velhinha bandeira de 1888 foi utilizada até 1927, altura em que o tuno Hugo Eloy ofereceu uma nova bandeira, feita por sua irmã Maria Eloy, para colocar ao uso. Posteriormente (talvez nos anos 60), foi feito um móvel próprio para guardar e ter em exposição a primitiva bandeira. Esse investimento foi feito pelas gerações anteriores com a plena consciência do valor deste objecto e da importância de estimar e valorizar o património e a memória.

Sabemos que é necessário investir continuamente na conservação do nosso património. No topo das prioridades estava a bandeira de 1888. Este objecto é uma património físico e simbólico que merece uma atenção muito especial. Hoje demos este passo e o processo está em andamento.

AC, 26 de Junho de 2020

Dimensões da bandeira: 130 cm por 90 cm (móvel 134,5 cm  x 93 cm).

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Bernardo Augusto Loureiro Polónio identificado na fotografia de 1903

Caros Tunos,

a propósito de Diogo Polónio, contactámos a Ex.ma Sr.ª Doutora Maria Eugénia Polónio, neta de Bernardo Augusto do Amaral Polónio, o tal sobrinho de Diogo Polónio a que já nos referimos num post anterior. Entre outras informações úteis, enviou-nos uma fotografia do tal estudante de medicina que foi tesoureiro da TAUC, Bernardo Augusto Loureiro Polonio, irmão de Diogo Polonio.

Segundo registo familiar, Bernardo Polónio exerceu como médico na marinha mercante.

Comparando esta fotografia com a fotografia de conjunto de 1903, concluímos que muito provavelment é o n.º 32.

Bernardo Augusto Loureiro Polonio nasceu em Santar, no dia 5 de Maio de 1871 , fez medicina na UC entre 1895/1896 e 1904/1905 e exerceu medicina na marinha mercante. Faleceu a bordo, por volta de 1911/1912 (com doença infecto-contagiosa?), sendo sepultado no alto mar.

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Será que este melro [Diogo Polónio] pertenceu à TAUC?

Recebi hoje uma mensagem via e-mail do Tuno TT e já “histórico” maestro da TAUC (Tuna, Rags e agora, OAUC), André Granjo, perguntando: «Será que este melro pertenceu à TAUC?»

Illustração Portugueza, edição semanal do jornal Século, n.º 173, Lisboa, 14 de Junho de 1909 (pag. 768). Online: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/IlustracaoPort/1909/N173/N173_item1/P34.html

Curiosamente, este tipo de pergunta  tem-me sido feita (ipsis verbis) muitas vezes ao longo dos anos e – porque temos uma base de dados informatizada – a resposta muitas vezes chega, afirmativa, em apenas alguns segundos. No caso de Diogo Augusto Loureiro Polónio, já não é o André a primeira pessoa que me faz a pergunta e por isso há alguma informação adicional na base de dados.

Atalhando (para os apressados), a minha resposta não é definitiva, porque até ao momento ninguém se ocupou de o tentar demonstrar ou provar, mas creio que é provável que Diogo Polónio tenha integrado a TAUC.

Consultando os anuários da UC, observamos que Diogo Augusto Loureiro Polónio, filho de Augusto Loureiro Polonio, natural de Santar, concelho de Nelas, distrito de Viseu, matriculou-se na UC, em direito, no ano lectivo de 1894/1895. No ano lectivo seguinte, 1895/1896, matriculou-se na UC o seu irmão Bernardo Augusto Loureiro Polónio.

Ainda nos anuários, podemos também verificar que, nos anos lectivos de 1895/96 e 1896/97,  os dois irmãos estavam inscritos na UC e a morar na mesma casa:
«Bernardo Augusto Loureiro Polonio, filho de Augusto Loureiro Polonio, natural de Santar, concelho de Nellas, districto de Vizeu — Arcas de agua, n.° 77.»
«Diogo Augusto Loureiro Polonio, filho de Augusto de Loureiro Polonio, natural de Santar, concelho de Nellas, districto de Vizeu – Arcas de agua, n.° 77.»
(Atenção: há um outro Bernardo Augusto do Amaral Polonio, aluno de Direito entre 1897/98 e 1901/1902, também de Santar e que também morou nessa casa no ano lectivo de 1896/1897 – é um sobrinho).

Sabemos, através de várias fontes, que Bernardo Augusto Loureiro Polónio foi tesoureiro da TAUC:

O Conimbricense. Coimbra, 7 Junho 1902, Ano 55, Nº 5690, p. 3
Pela academia
— Realisaram-se ha pouco as eleições dos corpos gerentes da tuna académica. O resultado foi o seguinte:
Assemblêa geral
Licenciado Aurélio Costa Ferreira, presidente;
Raul Duque e Alves Sobral, secretarios.
Direcção
Martins Grillo, presidente;
Paulo Menano, secretario;
Bernardo Polónio, thesoureiro.
O nosso amigo sr. Francisco Macedo continua dirigindo a parte musical.
Já estão projectadas algumas excursões, sendo a primeira ao Porto e a segunda talvez a Madrid ou Sevilha.
A Ordem. Coimbra, 16 de Janeiro 1903, Ano 25, Nº 2779, p. 2
PELA UNIVERSIDADE
A pedido do interessado cumpre-nos esclarecer um ponto d’uma noticia que no nosso ultimo numero démos sobre a Tuna. Não era ao sr. Bernardo Polonio a quem nos referimos quando dissemos ainda lá haver alguns pôdres. Fazemos esta declaração por aquelle senhor occupar na Tuna um logar espinhoso e de responsabilidade como é o de thesoureiro.
Foram na quarta feira ao Porto para tratarem da próxima visita da Tuna áquella cidade, o presidente e o thesoureiro.

Gaceta de Galicia, de 4 de Março de 1905 (ver TAUC 1904/1905)

e o manuscrito de Sérvulo Brandão, de aproximadamente 1909: «Thezoureiros que tem havido na Tuna Academica … Dr. Polonio +… médico» [a cruz parece indicar que circa 1909 já não se contava entre os vivos].

Bernardo Polónio concluiria o curso de medicina em 1905 (Faculdade de Matemática 1895/1896 + Faculdade de Medicina 1900/1901 a 1904/1905, ou seja, demorou 10 anos. O normal seriam 8 anos).

Diogo Polónio chumbou 3 anos consecutivos (de 1894/95 a 1896/1897) e só voltou a matricular-se em Direito, 8 anos depois, no ano lectivo de 1905/1906, já depois de o seu irmão Bernardo ter concluído o curso de Medicina no ano lectivo de 1904/1905.

Caricatura de Diogo Polonio in «Quid Petis? Recordações dum quintanista» Caricaturas por J. Valerio. F. França e Arménio Amado Editores, Coimbra 1910» Disponível online: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/RaridadesBibliograficas/QuidPetis/QuidPetis_master/QuidPetis.pdf

Diogo Polónio concluiu então o curso de Direito em 5 anos (entre 1905/1906 e 1909/1910) e, como se pode observar na quadra que acompanha a caricatura, é tratado como «o nosso caro avôsinho».


No Museu Académico de Coimbra existe uma fotografia de Diogo Polónio autografada  e com data de 26 de Maio de 1910.

 

Sobre a Charanga Lamoureux, António Manuel Nunes sintetiza o essencial neste post: http://guitarradecoimbra4.blogspot.com/2018/03/a-fada-madrinha-da-pitagorica-em-1899.html

Um detalhe: nessa data, 31 de Maio de 1905, durante as festas do «Enterro do grau», a Charanga «Lamoureux» não foi regida por Diogo Polónio (que só reingressou na UC em Outubro de 1905) mas sim por «monsieur Quintanilha». De acordo com o que está escrito no programa e com aquilo que escreveu Diamantino Calisto in «Costumes Académicos de Antanho 1898/1950» (Porto: Imprensa Moderna, 1950), concluo que se trata de José Velho Quintanilha de Sousa Oliveira Larocq, filho de José de Sousa Oliveira, natural de Ponta Delgada, aluno de direito entre 1900 e 1907.

Programa do Sarau do Enterro do Grau, realizado do Teatro Avenida no dia 31 de Maio de 1905 (fonte: http://guitarradecoimbra.blogspot.com/2007/01/sarau-do-enterro-do-grau-programa-do.html)

Caricatura de José de Sousa Larocq no primeiro livro dos quartanistas, com 136 caricaturas de todas as faculdades, feitas por João Amaral (31 de Maio de 1905).

A charanga Lamoureux in «Illustração Portuguesa», ano 2, n.º 83, de 5 de Junho de 1905, pag. 493.  Fonte disponível online: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/IlustracaoPort/1905/N83/N83_item1/P14.html

«A charanga Lamoureux: primeiro plano: Srs. Quintanilha Larocq, José Barbedo, Anthero Vilhena, Pedro Feio, Vicente Ferreira, José Rosado, Marcellino Fialho, António Mexia, Jorge Motta. – Segundo plano: Srs. Eduardo Bellino, Carmo Braga, Carlos Soares, António de Magalhães. – Terceiro plano: Srs. Fradique Beja, Cautella Junior, Marcolino d’Oliveira, C. Rato, António Rebello, Luís Bernardo, Agostinho Rapazote.» (Fonte: post de Mário Torres no facebook sobre o «Enterro do grau»)

Se cruzarmos esta lista de nomes (transcrita da «Illustração Portuguesa» pelo Dr. Mário Torres) com a lista de tunos que foram à Galiza em Março de 1905, encontramos “apenas” 3 elementos comuns, incluindo o maestro da charanga. Isto não é de admirar porque entre a malta que posteriormente veio a fazer parte das “orxestras pitagóricas” integradas na TAUC ou encostadas à TAUC, era facto reconhecido que a esmagadora maioria dos elementos não sabiam ler música e portanto dificilmente tinham assento nos naipes da Tuna, daí que a Tuna era «música séria» e as pitagóricas “música seriíssima” (não era incomum alguns desses elementos terem outras valências, como actores, declamadores, entertainers, etc).

Pelo facto de José de Sousa Larocq  ter sido tuno e pelo facto de o irmão de Diogo Polónio ter sido tesoureiro da TAUC, parece-me naturalmente provável que Diogo tivesse integrado a TAUC, precisamente com a charanga ou orxestra, mas isso é algo que só poderemos afirmar com documentos.

No dia 6/6/2016 o Dr. António Nunes enviou-me um email dizendo:

«Vai para uns 5 anos, um neto do Polónio que andava a estudar em Coimbra falou comigo por email via blog Guitarra de Coimbra. Disse que uma vez ia a passar junto da entrada do bar da AAC e deparou com uns cartazes/fotos onde estava esta cara e que apanhou um valente susto pois a carranca do avô era parecida com a dele.»

Postal com a fotografia de Diogo Polonio.

portanto o actual tuno-pitagórico que quiser investigar este assunto e elaborar uma história menos mitológica e mais documentada das “Pitagóricas”, pode começar por procurar os descendentes de Diogo Polónio. 🙂

Adamo Caetano, 17 de Junho de 2020

[1] Ver fotografias «AURÉLIO DA PAZ DOS REIS, ENTERRO DO GRAU, COIMBRA, 1.6.1905» (https://digitarq.cpf.arquivos.pt/details?id=1247840)

[2] Livro de horas, 1908-1911, Hipólito Raposo, Coimbra, F. França Amado, 1913. pag. 165 «O Polonio». Disponível online em archive.org

«O Polónio
Numa papelaria da Baixa vende-se permanentemente um bilhete postal ilustrado com a figura risonha deste velho estudante da Universidade.
Ha poucos dias ainda que eu lhe dera pela falta em Coimbra e senti uma desconsoladora impressão quando recebi a noticia de que ele se formara casualmente o ano passado e partira cheio de esperanças, a começar por fim a vida pratica…
Não venho apresentar-lhes o Diogo Polónio a quem o postal que o leva para a imortalidade chama «celebre», numa curta e elucidativa legenda — quero apenas anunciar aos seus numerosos condiscípulos e amigos que já sobre a sua cabeça encanecida pelos anos de estudo, desceu a borla dum lente a dar-lhe o grau, em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo.
E este facto da formatura do Polónio, veterano e condiscípulo de todas as gerações no periodo constitucional, avulta entre aqueles que meus olhos hão visto no transcorrer agitado de seis anos de Coimbra.
Santo Deus! E lá possível que tu, Polónio amigo, arrancasses a Minerva as merecidas cartas e te abalasses para a vida, a fazer-te homem sério, talvez delegado ou notário, com sobrecasaca e tudo!
Porque tu eras o eterno decano, fatal em cada outubro, vindo lá de Nellas por essa Beira tranquila, porque nós todos que chegávamos, trazendo-te abraços dos nossos juizes, já cheios de filhos por lá, costumávamos partir, deixando-te sempre no mesmo ano, com a lembrança vaga de nos termos cruzado contigo em finanças ou civil.
Agora estou eu aqui a afirmar cheio de magua, que tu te formaste e ninguém me crê, como se falasse na quadratura do circulo ou em qualquer impossível mais importuno ainda.
Porque mal imaginas, Amigo: a gente que te via tratar de tu com conselheiros do Supremo, que te podia perguntar se o Eça fumava, quando por cà andou ou que tal era a «Rachel» com quem João de Deus tam amarguradamente chorou — não te compreendíamos exercendo outra profissão, jurávamos que jamais abandonarias Coimbra até á morte.
Bem te lembras ainda, decerto: os lentes que todos foram teus caloiros, intendiam que era praxe reprovar-te e varias vezes cuidaste generosamente que algum condiscípulo fora vitima da troca dos nomes…
Tu, vingadoramente, festejavas os «chumbos» como os outros as aprovações, não fosse alguém supor que os actos te eram mais que pretexto para andar de capa todo o ano. E sempre assim foste — filósofo.
Abalavas com as tunas, sorvendo o romantismo em burgos de província ou entrando por Espanha anualmente, para importares suspiros e madeixas de Ramona, a finar-se de saudades por ti, já então respeitável chefe de família.
Nós cuidavamos-te eterno como as estatuas da Porta-Ferrea, uma espécie de Fauno que os velhos deuses encarregassem de habitar solenemente estas ruas e estes logares.
Conta-nos a tua vida, dize-nos para onde levaste um baú de retratos com abraços de quintanista que devias ter e promete-nos que has-de tornar!
Fazes falta, Coimbra inteira te reclama para si, fervorosamente.
Ha três anos apontava-te eu a um conhecido que se formara para que ele te admirasse o carinho e solicitude com que esperaste pelos filhos até seres seu condiscípulo, quando ele me respondeu, abrindo para ti os braços:
— O Polónio! já cá andava no meu tempo!
Vê tu, meu velho, que alegrias sãs e que feliz camaradagem em ti encontrara aquele bacharel teu condiscípulo, para me dizer que se sentia mais novo trinta anos e até aliviado da mulher e de seis filhas que tinha!
E quando tu, sorrindo de alto, do nosso entusiasmo quasi infantil, ao ver uma tricana de passo meudo e olhos líquidos — dizias saudosamente, lá do fundo : — Se vocês tivessem conhecido a mãe!…
Em verdade partiste (e ainda mal!), talvez para levares o grau, dos últimos graus que em nome de altos poderes sagravam e iluminavam a nossa sciencia, mas ficaste conosco e para sempre, mais duradoiramente que numa estatua, mais decentemente que na consagração de um centenário…
O postal. Polónio, é a gloria, a baixo preço, sim, mas por isso gloria mais universal e eficaz.
Com dois tostões apresentas-te nas cinco partes do mundo, voas, percorres mares e subirias até aos planetas, se para lá já houvesse o progresso do correio, levando com a tua cara de bondade as insígnias da trupe, como se a San Francisco de Assis entalassem no cordão do hábito um punhal de Toledo!
Sim, porque essa trilogia classicamente agressiva — moca, tesoira e colher — só podes ostenta-la com o fim de explicares o seu manejo, nos tempos longinquos em que aqui chegaste, sobre uma albarda sebenta, guiado por um arrieiro preguento, quando não havia eléctricos, nem gaz, nem talvez câmara.
Mas volta para nós. Polónio amigo ! Já que exgotaste o Direito, matricula-te no resto de Teologia que haja, traze os filhos e os netos, meu patriarca, e repoisa aqui os poucos anos que ainda te vão até á morte!»

Nota: a propósito do Centenário da Sebenta, em 1899, Trindade Coelho reproduziu esta informação no In illo tempore: «Segue-se o carro da comissão, com grandes caricaturas dos estudantes Polonio, Thomaz de Noronha, Pad Zé, Barbosa e outros, originais de Jorge e de Monterroso.». Não é possível afirmar de qual Polonio se trata. Considerando que a comissão era constituída por condiscípulos de direito 1894/95 a 1899/1900 [João Eloy Nunes Pereira Cardoso, Afonso Lopes Vieira, Alberto Costa (Pad Zé), Alexandre Albuquerque (Xandre), Eduardo Alberto Barbosa?] é até possível que fosse Bernardo Augusto do Amaral Polonio mas também é possível que fosse o seu tio Diogo Polónio que foi condiscípulo de direito de todos eles, pelo menos durante 3 anos.

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