Egas Moniz e a memória académica

Egas Moniz quintanista fitado de Medicina. Fonte: carte de visite oferecida a João Eloy, companheiro da Tuna.

Quando alguém colocou em dúvida uma História contada ao longo de um século sobre a origem da TAUC, imaginou ou supôs que a memória da Academia de Coimbra dos finais do séc. XIX seria muito curta.

A Academia Musical de Coimbra que se organizou em Março de 1888 com o propósito de visitar Santiago de Compostela não viu esse objectivo concretizado e dessa formação inicial só  o contínuo, Sérvulo Brandão, foi na viagem que a Tuna Académica de Coimbra fez a Santiago de Compostela em Fevereiro de 1898, ou seja, 10 anos depois (o maestro Simões Barbas, por estar doente, foi substituído por Samuel Pessoa).

Faziam parte dessa formação da Tuna de 1898 (entraram na UC em 1891) Egas Moniz, como presidente, e João Evangelista Cunha e Costa como secretário (irmão de José Soares da Cunha e Costa, que foi secretário da Tuna em 1888/89 e presidente em 1890). Egas Moniz, num discurso proferido em 1898, em Santiago de Compostela, recorda entre outros, imagine-se, António Fogaça, o jovem poeta, aluno de Direito, que faleceu em Novembro de 1888 e pelo qual a Estudantina de 1888 cobriu de luto a sua bandeira, precisamente no dia em que a estreou (8 de Dezembro de 1888).

Eis um excerto do discurso de Egas Moniz, presidente da direcção da Estudantina/TAC em Fevereiro de 1898 (pág. 108 E em O):

«Nós não somos artistas, não vimos por isso aqui tocar com a pretensão de alcançar os louvores de um correcto trabalho; longe disso: nós vimos aqui tocar como a paisagem de Coimbra, a recordar com prazer aquelas ilusões, aquelas alegrias, quando nas noites de luar caminhamos pelas poéticas margens do Mondego, pelas brisas e aragens puríssimas, o mesmo que pelo murmúrio daquelas águas evocam em nós recordações inolvidáveis dos que ali passaram deixando pedaços da sua alma. Lá recordamos António Fogaça e Santos Mello e a triste nota dos nossos fados desperta na nossa memória o querido companheiro e melancólico boémio de hoje: «O Hylário». Portanto como sonhadores, como boémios e como estudantes, é como aqui vimos.»
21 de Fevereiro de 1898, Santiago de Compostela.

Afinal a “memória académica” não é assim tão curta!

E em 1948, neste singelo cartão, Egas Moniz recorda que foi tuno… 50 anos depois!

Cartão enviado por Egas Moniz à direcção da TAUC em 1948: «À ilustre Direcção da Tuna Académica de Coimbra, profundamente reconhecido, agradece os seus parabéns o antigo tuno / Egas Moniz.»

Mais de 120 anos depois é bom verificar que os tunos de hoje sabem que Egas Moniz foi presidente da Tuna. Não tocava, não cantava, não poetava, nem representava no grupo dramático, mas como aluno accessit (foi, nesses anos, o aluno de medicina melhor classificado) e bom orador (além de líder de uma facção monárquica progressista da Academia), foi – naquele contexto político de 1896 – o eleito para o cargo e daí em diante sempre soube vestir a sua capa de tauquiano.

A. Caetano

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Restaurado o documento de 1940 com a fotografia de 1888!

Caros Tunos,

temos o prazer de anunciar a conclusão do restauro a que foi submetido este importante documento para a História da TAUC.

No decurso das operações de restauro o documento foi digitalizado em alta resolução (antes e depois da intervenção). Sabemos que estão curiosos para ver o resultado mas terão de esperar! 🙂

O que é realmente importante:
– o documento existe 🙂
– está guardado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
– está digitalizado
– está restaurado e guardado em melhores condições.

António Maria Fructuoso da Silva em Dezembro de 1888, com 19 anos, violinista (e pianista) da Tuna.

Este é o momento para recordar o importante papel do registo e da memória, e assim fazer a nossa pequena homenagem a António Maria Fructuoso da Silva (1869–1943), estudante de direito na UC entre 1888/89 e 1894/1895 e um dos elementos que integrou a Tuna/Estudantina Académica de 1888 (n.º 6 na fotografia) como 2.º violino e pianista. Fructuoso da Silva foi um elemento muito activo e um dos elos de continuidade com o grupo que rearranca, sob a mesma bandeira e sob a mesma batuta, no ano lectivo de 1893/1894. Em boa hora produziu este documento e o ofereceu à TAUC, em 1940, com a dedicatória que podeis ler:


«À actual Tuna Académica de Coimbra e ao seu Insigne Regente
Dr. Raposo Marques com muita admiração
oferece
o n.º 6 – o violino mais novo da primitiva – hoje com 71 anos,
Antonio Maria Fructuoso da Silva»
(1940)

Digitalização do documento antes do restauro.

Para saber mais sobre este documento siga este LINK.

A nossa missão vai sendo cumprida: honrar e preservar a memória daqueles que nos precederam!

Com base neste restauro, pondera-se agora também um restauro digital e publicação impressa desta recordação dos fundadores.

A. Caetano, 16 de Janeiro de 2021

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Boémia Coimbrã de João Eloy

João Eloy Pereira Nunes Cardoso (São Tomé e Príncipe, 22 de Outubro de 1875 – Lisboa, 29 de Abril de 1944) é o autor de um delicioso livrinho que é dos mais divertidos e interessantes entre a literatura memorialista dos antigos estudantes de Coimbra: «Boémia CoimbrãA vida académica de Coimbra nos fins do século passado» foi publicado em 1938, com prefácio de Ramada Curto, e resulta dos textos que preparou para as palestras realizadas na Emissora Nacional entre 1937 e 1938. Foi impresso nas Grandes Oficinas gráficas «Minerva» de Gaspar Pinto de Sousa & irmão, Vila Nova de Famalicão – 1938.

Só em 2015/2016 me apercebi que João Eloy Pereira Nunes Cardoso enquanto estudante de Direito na Universidade de Coimbra, entre 1895/96 e 1899/1900, foi elemento da Tuna Académica de Coimbra (foi elemento do Grupo Dramático da Tuna e 1.º secretário da Direcção no ano lectivo de 1899/1900) e foi também um dos principais protagonistas na organização do Centenário da Sebenta, em 1899 – a ele coube-lhe o papel do Espectro de D. Dinis no grandioso desfile e récita/sarau.

Capa da edição de 1938. Desenho feito por Alberto Eloy Borges Cardoso, filho de João Eloy.

Depois de algumas pesquisas online, estabelecemos contacto com Maria Madalena Eloy, neta de João Eloy, que guarda as memórias do seu avô e que tem partilhado connosco fotografias e recordações muito interessantes dos tempos da Vida Académica de João Eloy.

A “grande novidade” (ao retardador) é esta: em 2017, Maria Madalena e seu filho, Pedro Eloy, reeditaram esse maravilhoso e tão raro livrinho de João Eloy, e desde essa data, está disponível online, na Amazon, agora com o título «Boémia Coimbrã: A Vida Académica de Coimbra nos Finais do Século XIX».

Capa da edição de 2017.

Este livro – tão interessante sob diversos pontos de vista – tem a particularidade de referir vários estudantes que, tal como João Eloy, integraram a Tuna Académica de Coimbra, como por exemplo, Luiz Xavier da GamaErnesto Leite de Vasconcellos (que integraram o grupo dramático da TAUC em 1888; Luiz Xavier da Gama ficou até 1895), Jayme Constantino Fernandes Leal (porta-bandeira em 1894), Bernardo Vellez de Lima (o Gasparinho, pandeireta), Augusto Hylario (cantor de fadinhos e músicas populares), Francisco Joaquim Fernandes (presidente da TAUC em 1894/95), José Paes Telles (porta-bandeira aprox. em 1900), João de Deus Ramos (guitarrista), … Ora isto coloca em evidência como estas diferentes gerações de estudantes se conheciam, mantinham contactos inter-geracionais e existia uma fortíssima memória académica. Curiosamente, Ramada Curto, estudante de direito entre 1905 e 1910, é quem prefacia a obra! E esta demonstração de que esse contacto e essa memória inter-geracional existiu na Academia de Coimbra dos finais do século XIX, é afinal um detalhe importante para a História da TAUC! 🙂

Caros Tauquianos, já li este livrinho várias vezes e acho-lhe sempre renovado interesse até porque as mais divertidas peripécias passam-se com elementos da Tuna Académica de Coimbra e tudo isto é narrado por um Tauquiano.

Devo ainda prevenir-vos que existe outro livro intitulado «Boémia Coimbrã» da autoria de António Nicolau Cruz Soares da Costa, Ed. Athena, Coimbra, 1975. Curiosamente também este autor foi tauquiano e nesse livrinho também relata divertidíssimas peripécias que acontecerem com ilustres tauquianos nos anos 40 do séc. XX. 🙂

A . Caetano

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José Rebola encontrou o guitarrinho/bandurrinho ou vice-versa

Belo encontro e belo momento! Parabéns José Rebola!

Os curiosos do guitarrinho/bandurrinho, ao ouvir isto, vão ficar cheios de apetite para colocar um lá em casa e outros vão arrancá-los das paredes.

Um abraço da TAUC,

A. Caetano

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Série de posts com novidades sobre a guitarra e João de Deus

«E assim se arrebenta a festa!» … com a publicação de um conjunto de posts contendo informação interessante e que traz novidades sobre o assunto…

Entre Deus pai e Deus filho (1): o bom tauquiano à TAUC regressa

Guitarra do acervo do Museu João de Deus

Um postal de Coimbra (c. 1904)

Entre Deus pai e Deus filho (2) – Viola Romântica de João de Deus

Viola Romântica de João de Deus

Entre Deus pai e Deus filho (3) – FADO JOÃO DE DEUS

Entre Deus pai e Deus filho (4) – FADO / VARIAÇÕES [PARA GUITARRA EM] TOM MENOR

Entre Deus pai e Deus filho (5): isto é o “Fado João de Deus”?

A guitarra e a afinação natural menor dita afinação João de Deus

Grupo de estudo da TAUC – Arquivo Digital

(Adamo Caetano; António M. Nunes)

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Aos amadores da guitarra portuguesa

Um breve apontamento sobre Reynaldo Augusto Álvares Pereira Leite da Silva Varella (Braga, Janeiro de 1861 – Lisboa, 24 de Dezembro de 1940).

Segundo esta fonte: http://museu.ua.pt/index.php/Detail/entities/69 «entre o final do séc. XIX e as primeiras duas décadas do séc. XX, foram já identificados cerca de 140 fonogramas editados pelas maiores companhias discográficas internacionais à época com a sua intervenção (Melo, 2010; Vernon, 1998).»

Entre estas dezenas de gravações constam 4 registos com guitarra, a solo, que são arranjos para guitarra de 3 excertos de óperas e uma rapsódia de temas populares portugueses. Estão disponíveis no Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado:

Fantasia da Ópera La Traviata, Giuseppe Verdi – Reynaldo Varella – 3:30

Miserere da ópera Il Trovatore, Giuseppe Verdi – Reynaldo Varella – 3:21

Habanera da ópera Carmen, George Bizet – Reynaldo Varella – 3:03

Rapsódia de cantos populares portugueses –  Reynaldo Varella – 3:16

Parece-me claro que Reynaldo Varella exibe aqui o seu virtuosismo e o seu conhecimento dos recursos/possibilidades técnicas do instrumento – recursos que conheceu e explorou, estritamente ligados à guitarra e/ou conheceria do estudo da viola francesa e outros cordofones.

Segundo nota enviada por Pedro Jorge: As 4 gravações [da FAVORITE] foram feitas no dia 18 de Junho de 1911 em Hamburgo. Estes dados estão codificados nas matrizes dos discos. Varela tinha-se deslocado à Alemanha a convite do maestro Xavier Roque.

Vale a pena ouvir estes temas e ensaiar a sua transcrição.

Agradecemos ao Dr. António Manuel Nunes a indicação da disponibilidade destes registos on-line no Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado.

A. Caetano

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Henrique Pereira da Mota (1905 – 1980) – biografia em edição electrónica

A Tuna Académica da Universidade de Coimbra tem o prazer de anunciar a publicação de uma biografia do Dr. Henrique Pereira da Mota, sob a forma de edição electrónica de livre acesso ao público.

Capa desta edição pela TAUC, 2020.

Henrique Pereira da Mota – conhecido nos seus tempos de Coimbra, como Pantaleão – cursou Medicina entre 1924 e 1932 (curso  que introduziu a «venda da pasta» e o uso das cartolas na festa da Queima das Fitas) e foi elemento da TAUC, assumindo especial protagonismo no grupo dramático e nos números de “variedades”, juntamente com o seu amigo de Direito, da Real República Ribatejana e do jornal «O Ponney», o alegre boémio Castelão d’Almeida.

Henrique Pereira da Mota – Pantaleão – Edição da TAUC – 2020 (em ficheiro PDF).

Henrique Pereira da Mota, logo no seu primeiro ano de universidade integrou a TAUC e participou na digressão ao Brasil, que se realizou em Agosto e Setembro de 1925. Henrique desempenhou o papel de Pantaleão na peça «Uma véspera de feriado» e de tal modo agradou que daí em diante ficou conhecido pelo nome da personagem.

Programa da TAUC no Brasil, Agosto de 1925.

«Uma véspera de feriado» foi a peça escrita por José Bruno Tavares Carreiro, enquanto quintanista de Direito,  para a récita de despedida do seu curso, em 1904. Esta peça teve tanto sucesso que, 20 anos depois, em 1925, ainda era representa por estudantes de Coimbra e fez parte do repertório da TAUC, que manteve Grupo Dramático, nos seus espectáculos, até aos anos 50.

Tudo isto e muito mais é contado nesta Fotobiografeta que reúne Testemunhos escritos pela esposa e pelos filhos de Henrique Pereira da Mota.

Pantaleão, figura muito querida e recordada por diferentes gerações de estudantes de Coimbra – especialmente pelas suas divertidas peripécias enquanto estudante – já noutra ocasião foi recordado, como tauquiano, num apontamento biográfico de José Nascimento, agora, com esta edição, temos o prazer de contribuir para a divulgação de uma visão mais completa de Henrique Pereira da Mota, como estudante, tauquiano, médico, pai de família, cidadão, homem.

 

Como figuras centrais na fotografia de conjunto da TAUC de 1928/1929: 5 – Henrique Pereira da Mota (Pantaleão) – viola/variedades (Medicina) 6 – Herculano Gonçalves – pandeireta (Medicina) 7 – Afonso de Sousa – viola (Direito) 9 – Augusto Castelão Oliveira de Almeida variedades (Direito)

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Augusto Teles Malafaia

Augusto Teles Malafaia (7)

   Numa noite de conversa com o Adamo, estávamos a falar sobre o facto de não termos documentada, por enquanto, nenhuma foto de conjunto da TAUC entre o ano letivo de 1904/1905 e 1909/1910. Estamos a falar de um intervalo de 5 anos sem este registo, que é uma tradição que dura até aos dias de hoje (1). No entanto, em Março de 1905, a TAUC foi a Santiago de Compostela e na edição de 4 de Março de 1905 do jornal “Gaceta de Galicia” encontra-se uma lista com o nome dos elementos da Tuna Académica de Coimbra (2).
É provável que descendentes destes antigos tunos possuam, em suas casas, documentos e fotografias destes anos. Assim, com o objetivo de tentar descobrir fotos de grupo destes anos, peguei na lista que o Adamo publicou online e fui ao Google ver o que é que encontrava. Escolhi um nome ao acaso, Augusto Teles Malafaia. O esperado seria não encontrar nada, mas o que descobri é bastante interessante.

   Filho de Joaquim Teles de Malafaia Freire d’ Almeida Mascarenhas e natural da freguesia de Serrazes, concelho de S. Pedro do Sul, Augusto Malafaia nasceu em Vouzela, São Miguel do Mato, no dia 25 de Outubro de 1882 (3), e foi estudante de Direito na Universidade de Coimbra entre os anos de 1904 e 1909. De acordo com a lista publicada no jornal atrás referido, foi membro da Tuna e participou na digressão a Santiago de Compostela.

Após terminar o curso terá regressado à freguesia de Serrazes, à casa de seu pai, o Solar dos Malafaias.

O Solar dos Malafaias, também conhecido como também conhecido por Casa das Quintãs.

   Alguns anos depois, em 1917, a sua prima, Eugénia Malafaia, ficou noiva de um açoriano, José Bettencourt. Ao que parece, Bettencourt queria casar-se com outra prima de Augusto, mas por engano ficou noivo de Eugénia. Para contornar a situação, José Bettencourt inventou que Augusto Malafaia atentou contra o pudor da sua prima Eugénia. Pela manhã do dia 26 de Junho de 1917, José Bettencourt e Fernando Novais, irmão de Eugénia, deslocaram-se ao Solar dos Malafaias, para falar com Augusto Malafaia. Após conversar com José e Fernando, e tendo negado o envolvimento com a prima, foi assassinado por estes, no seu escritório, (4). Estava então consumado o “crime de Serrazes”.

    Os assassinos foram capturados, o caso foi para tribunal, e a sentença foi o desterro perpétuo que depois foi reduzido para 20 anos. Este crime comoveu a região e o país, e há registos de que, no velório de Augusto Malafaia, estiveram presentes gentes da Velha Universidade de Coimbra para prestar as condolências à família enlutada (5) (provavelmente terão inclusivamente estado presentes representantes da TAUC!).

Em 1922, 5 anos após este assassinato, José Soares Cunha e Costa, que foi o advogado de defesa da família Malafaia e, curiosamente, presidente da Tuna em 1889/1890, (6), escreveu o livro «Uma causa célebre (o crime de Serrazes)». Este crime foi de tal forma falado e conhecido que deu também origem a um romance lançado em Agosto de 2017, por António Breda Carvalho. Neste ano, o povo de Serrazes prestou uma homenagem ao Dr. Augusto Teles Malafaia, assinalando o centenário do seu assassinato.

«O Crime de Serrazes – o crime que abalou o país», romance de António Breda Carvalho.

    Este é mais um dos vários exemplos de um antigo Tuno que se tornou famoso. Apesar de esta ser uma pequena descoberta, pode vir a originar grandes descobertas. O Solar dos Malafaias é, sem dúvida, um lugar a visitar. Conta-se que a mãe de Augusto ficou de tal forma abalada que nunca deixou lavar o chão sobre o qual foi derramado o sangue de seu filho e que, ainda hoje, a mancha de sangue pode ser vista no local do assassinato – o escritório da Casa das Quintãs. Quiçá encontrar-se-ão também por lá as fotos de conjunto que tanto gostaríamos de descobrir…

Coimbra, 18 de Dezembro de 2020

Eduardo Ribeiro (Júlio)

Um agradecimento especial ao Adamo pelo incentivo e ajuda essencial nesta pesquisa e ao Jorge Resende pela pesquisa do assento de baptismo de Augusto Teles Malafaia.

(1) Fotografias de conjunto da TAUC
(2) Lista de elemento na Digressão à Galiza em 1905
(3) Assento de baptismo, Arquivo Distrital de Viseu (assento 18, tif. 7 ).
(4) Notícia na Gazeta de Coimbra, 28 de Julho de 1917, ano VII, n.º 624, pag. 3. 
(5) Gazeta da Beira, “Consciência coletiva das gentes de Serrazes um século após o assassinato do Dr. Augusto Malafaia”, Agostinho da Silva
(6) José Soares da Cunha e Costa
(7) Fonte da fotografia (online)
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Tese ou evidência? mais um cão-tributo

Para quem está fora de cão-texto … leia-se: contributo (cão-tributo) para a História da TAUC.

Com altos e baixos as récitas de quintanistas foram durante sensivelmente 100 anos – de 1850 a 1950 – um acontecimento com enorme importância na vida dos académicos da Universidade de Coimbra. Eram espectáculos dramáticos, musicais, coreográficos e literários, onde se investia muito tempo, esforço criativo e muito dinheiro também (que o público familiar patrocinava e não raras vezes ainda revertia produto para a Sociedade Philantropica de Coimbra). As récitas de quintanistas foram durante décadas o momento mais ansiado de um ano lectivo ou de uma Vida Académica e foram, por excelência, um evento catalizador, uma força-motriz e uma mostra da criatividade dos estudantes. Depois dos anos 50, a Queima das Fitas, com a sua diversificada programação, assume importância crescente e esmorece a importância e a exuberância das récitas de quintanistas.

No percurso de afirmação institucional da Tuna Académica de Coimbra – como grupo com memória, património e identidade – as récitas dos quintanistas são repetidamente um ponto de partida e um ponto de chegada, não só porque os seus elementos, incluindo os maestros, estão e são sempre envolvidos nelas (enquanto quintanistas ou não) como músicos, como autores-compositores, como ensaiadores, como cenaristas, etc., mas também porque essa produção de música e texto (dramas, comédias e poesia) constitui-se depois como um património que é mantido e reutilizado pelas sucessivas gerações de estudantes e muito em particular pela rapaziada da Tuna Académica de Coimbra, que nas suas apresentações, pelo país e pelo estrangeiro, leva as manifestações culturais e artísticas que caracterizam a mítica (e a real) Academia de Coimbra.

Tenho afirmado repetidas vezes, como tese, algo que “em rigorzinho” me parece uma evidência: o figurino artístico da Tuna Académica de Coimbra, quando nasce, em 1888 – com o nome «Academia Musical de Coimbra» e logo depois «Estudantina de Coimbra» -, é todo ele um copy/paste do que acontecia nas récitas de V ano. Os elementos da Tuna entram e saem das récitas sem levantar da cadeira, pois as estantes e os maestros são os mesmos. Em 1888 um jornalista exclama perante a prontidão com que se constitui (como que por “geração espontânea”) a tuna de Coimbra, organizada de imediato após a visita da Tuna Compostelana, em numerosa troupe estudantina artisticamente polifacetada… Ora, os estudantes de Coimbra que se exercitavam nesse ginásio musical-literário-dramático, etc que era o Teatro Académico, só poderiam sorrir perante tal espanto.

Independentemente de influências de tunas e de outros grupos musicais visitantes, o formato afirmado ao longo de décadas pela TAUC é o das récitas de quintanistas da Universidade de Coimbra, e se olharmos para o caso da Tuna Compostelana, também esse grupo, em 1888, tinha esse formato orquestral-dramático-literário, que com uns meros retoques cosméticos e orçamentais era afinal o formato transversal a grupos e companhias de teatro-musical, revista, opereta, zarzuela, ópera-bailado. Só não vê isto quem não quer ver… ou quem afunila numa visão tuneril-ó-cêntrica do mundo.

Bit by bit e seguindo uma perspectiva fulanizada da história da TAUC, vamos colocando on-line informação e documentos que suportam esta tese ou que são simplesmente evidências!

Manuel Joaquim Correia, tuno entre 1893 e 1897.

José Rodrigues de Oliveira, tuno entre 1889 e 1894.

António Simões de Carvalho Barbas e Manuel Ferreira da Costa Amador Valente em «O sonho de um bacharel», récita de quintanistas de Direito e Teologia de 1895/1896

Raul Telles de Abreu, tuno entre 1897 e 1902.

A. Caetano, 15 de Dezembro de 2020

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A “mitulugia” tuneril

Algumas pessoas – incluindo “nozes” – por simples e absurdo desconhecimento, acreditam que a TAUC é um grupo que historicamente é apenas instrumental, isto é, nunca apresentou/ta temas com voz/es…
Bem… «a verdadek» ao longo da história e desde a origem – na meteórica Academia Musical de Coimbra de 1887/1888, depois Estudantina – as vozes e o canto sempre estiveram intimamente ligados mas isso levar-nos ia a uma longa viagem de 140 anos (DoCUmentem-se!).
Curiosamente além dos programas chegaram até nós registos audio… recordo um registo da TAUC em Benguela, em 1965 :
«7 anos andei na guerra» canta José Miguel Baptista, maestro Tobias Cardoso.
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