O que se vai fazendo no Arquivo Digital da TAUC

O Arquivo Digital da TAUC não se limita a digitalizar e arquivar.  A pesquisa, a busca de fontes (seguindo pistas), o processamento da informação e a sua divulgação, fazem parte das nossas tarefas e ambições. Obviamente, somos um grupo de “carolas” (pois os recursos da instituição são escassos) mas apesar disso o trabalho tem sido intenso e sério (especialmente a pesquisa e a investigação).

Saltitando de pista em pista e fazendo buscas mais dirigidas (recorrendo a ferramentas informáticas), vamos conseguindo encontrar fontes que nos interessam.

Há poucos dias (22 de Julho de 2019), numa das minhas buscas em jornais digitalizados (com reconhecimento de caracteres, OCR) encontrei um artigo que informa e confirma os indícios que já tínhamos sobre a realização de dois espectáculos, pela Estudantina, em Março de 1889.

21 de Março de 1889, Coimbra, Salão da Trindade
23 de Março de 1889, Coimbra, Salão da Trindade

Fiz imagens dos artigos, transcrevi os textos, anotei as referências dessas fontes, guardei os links para as fontes, actualizei a lista de espectáculos, guardei toda a informação numa base de dados e comuniquei aos colegas. Cruzámos informação e resolvi fazer um apontamento.

E este é um exemplo do que se faz no Arquivo Digital da TAUC. 🙂

O Campeão das Províncias, n.º 3781, ano XXXVIII, 30 de Março de 1889. GIULIETTA DIONESI EM COIMBRA


O Campeão das Províncias, n.3781, ano XXXVIII, 30 de Março de 1889

GIULIETTA DIONESI EM COIMBRA

Fallava-se já ha tempos em Coimbra na vinda de Giulietta Dionesi.
Os primeiros jornaes do Porto e Lisboa haviam-nos dado noticia de saraus em que a incomparavel violinista tomara parte, e celebravam com enthusiasmo o seu talento precoce e prodigioso.
Esperava-se, portanto, com anciedade a vinda da celeberrima creança artista, que tantos triumphos alcançara já nos primeiros palcos de Hespanha e Portugal.
Finalmente tivemos occasião de assistir nas noutes de 20, 21 e 23 d’este mez a tres esplendidos saraus dados n’esta cidade pela inexcedivel violinista, no Salão da Trindade, por se estar demolindo o Theatro Academico e andar em obras o de D. Luiz para a proxima recita dos quintanistas de Direito.
Giulietta uma sympathica creança de 11 annos. Tem sobretudo uns olhos formosissimos, d’uma expressão profundamente artística.

Apresenta-se modestamente com uma naturalidade insinuante, que ainda mais faz realçar o seu fulgente talento. Acompanha-a ao piano seu irmão, Romeu Dionesi, que é tambem um artista notabilissimo.
Julgamos quasi impossivel dar uma pequena ideia do génio phenomenal de Giulietta Dionesi.
Desde que ella fazia vibrar a primeira nota no seu magnifico Stainer, o auditoria ficava suspenso, como que arrebatado.

Nem sabemos definir bem o que em nós se passava então. Sentiamo-nos deslumbrados, sentiamo-nos impulsionados por um desejo ardentissimo de absorver todas essas notas d’uma pureza, d’uma sonoridade indefinivel, que ella arrancava do violino com uma expressão divina, ora repassadas de limpidissima suavidade, ora grandiosamente vibrantes, dementando a plateia, que rompia n’um delírio de ovações, cobrindo-a de flores e tapetando-lhe o palco com as suas negras capas academicas, em que ella graciosamente se envolvia, provocando um louco e febril enthusiasmo.
No fim repetiam-se incessantemente as chamadas e irrompiam phreneticos os applausos, que atingiram as raias da loucura, quando n’uma das vezes a genial artista veio à boca do palco debaixo da bandeira da Estudantina.

Romeu Dionesi executou magistralmente ao piano formosos trechos de musica classica, sendo tambem enthusiasticamcnte applaudido.
É na verdade um pianista de primeira ordem, que reune a uma execução primorosa o dom rarissimo de dar á musica muita expressão.
Tomou tambem parte nos dois ultimos saraus a Estudantina de Coimbra e o seu talentoso regente, dr. Simões Barbas, que mais uma vez se revelou um exímio artista em viola e flauta.
O apreciavel actor-imitador Lamas entreteve agradavelmente o público durante os intervallos, mantendo-o n’uma hilariedade constante.
Foi tambem muito applaudido. Apenas poude tomar parte nos dois primeiros dias.
Como parte do producto dos saraus revertia em benefício da Sociedade Philantropico-Academica, resolveu a direcção desta pedir, como é praxe em semelhantes circunstâncias, um feriado para o dia 22, o que lhe foi effectivamente concedido pelo senhor presidente do conselho.
Enfim, estes três brilhantíssimos saraus deixaram as mais gratas e saudosas recordações entre mocidade académica.
Á iminente violinista foram oferecidos os seguintes brindes:
Pela sociedade Philantrópico-Académica um formoso bouquet de flores artificiais, tendo pendentes fitas das cores distintivas das diversas faculdades; por Vaz Ferreira, quartanista de direito, uma corbeille de crystal rosa com flores naturaes; por Guilherme Machado, segundanista de direito um belo guarda-luvas de veludo azul, forrado a setim da mesma cor; por D. Luiz de Sousa Holstein, terceiranista de direito, uma bonita coroa de louros; por Artur Aguedo, quintanista de direito, um estojo contendo chávena, pires e colher de crhistofle; pela Estudantina de Coimbraum grupo da mesma e uma magnífica coroa de louros, tendo pendentes largas fitas de seda das cores das faculdades, onde ia gravado o oferecimento e a data do sarau, e muitos outros objectos que não nos é possível enumerar minuciosamente.
No dia 24, no comboio das 4h30 da tarde, partiu para o Porto Giulieta de Dionesi, sendo acompanhada até a estação por grande número de académicos, parte dos quais bem como a direcção da Phylantropica, seguiram até a Pampilhosa e alguns até ao Porto.
Tanto na estação como na Pampilhosa, foram-lhe levantados entusiásticos vivas.
E assim terminaram esses saudosos dias, deixando gratíssimas recordações a todos quantos tiveram a ventura de ouvir e apreciar a simpática e já tão célebre o violinista.
Segundo nos disse Romeu Dionísio, é muito provável que na Páscoa ela vá dar ao teatro dessa cidade um concerto. Seria uma enorme felicidade para o público aveirense, que tão apaixonado é pela divina arte de Mozart.
A impressão que em nós deixou o Giulietta Dionesi foi tão profunda, que não podemos resistir ao desejo de manifestal-la a quem dentro em breve terá talvez a ventura de poder ouvir a vibrar o seu inspirado violino, conhecendo então o quanto justificado é o nosso enthusiasmo.
Coimbra, 25 – 3 – 1889
F. Couceiro


E o trabalho não se esgota aqui!

O autor do artigo, F. Couceiro, é provavelmente Francisco Manuel Couceiro da Costa Junior, um dos elementos da estudantina (n.º 5 nesta fotografia de 1888).

Cruzando informação, podemos de imediato apresentar outros artigos relacionados, como por exemplo, este, em que « Os estudantes obrigaram Julietta a passar por cima das capas, envolta na bandeira da Estudantina.»

Jornal do Porto. Porto, 24 Março 1889, Ano 31, Nº 71, p. 1
Em Coimbra – Julietta Dionesi
Escreve-nos o nosso estimado correspondente de Coimbra que a pequena violinista distinctissima Julietta Dionesi provocou um intenso enthusiasmo na mocidade da academia. A insigne artista deu dois concertos, um no dia 20 e o segundo na quinta feira, no salão da Trindade, antigo tribunal.
O primeiro espectaculo, cujo producto reverteu n’uma pequena parte para a Associação Philantropica Academica, esteve frouxamente concorrido. Senhoras, compareceram apenas tres, e o resto do publico era composto quasi exclusivamente de estudantes.
Mas no concerto de quinta feira a affluencia foi enorme e o enthusiasmo arde em delirio. Dionesi motivou ovações calorosissimas.
A Estudantina tomou parte no espectaculo, executando o hymno academico. Em seguida Julietta, acompanhada ao piano por seu irmão Romeu Dionesi, executou o «concerto de Beriot» O actor Lamas realisou a «operamania.»
Na segunda parte a Estudantina executou uma walsa. Depois houve um dueto de piano e flauta, pelos snrs. Romeu Dionesi e Simões Barbas, regente da Estudantina. O actor Lamas effectuou algumas imitações. Julietta e Romeu Dionesi executaram a sonata de Paganini.
Todos os trechos foram festejados por longos applausos. Julietta foi brindada com alguns bouquets. Os academicos Francisco Bastos, Ernesto de Vasconcellos e Albano Guedes, dedicaram quadras á pequena artista. Os estudantes obrigaram Julietta a passar por cima das capas, envolta na bandeira da Estudantina.

Correspondencia de Coimbra. Coimbra, 29 Março 1889, Ano 18, Nº 25, p. 2
Partiu para o Porto a insigne violinista Julietta Dionezi.
Em Coimbra foi ella enthusiasticamente applaudida, e teve as offertas seguintes:
Um bouquet da Sociedade Philantropico-Academica; uma grande corôa de louros, da estudantina de Coimbra; uma corôa de louros, de D. Luiz de Souza Holstein; uma caixa de velludo azul para luvas, de Guilherme Machado; um grupo da estudantina; um serviço de prata e ouro num estojo de voludo azul, de Arthur Aguedo; um annel de ouro com brilhante, de Rodrigo Lencastre. Dedicaram a Julietta Dionezi as duas quadras que copiamos:

A creança que faz, extasi divino,
Com seu braço infantil de gesto delicado,
Vibrar e suspirar o magico violino
Com se acaso fosse um coração magoado;

Áquella que arrebata e prende as nossas almas,
Que nos arrasta, e vence, e subjuga, e domina;
Causando e provocando esta explosão de palmas,
À Julietta Dionezi off’rece a

Estudantina.

Pelo Arquivo da TAUC, Adamo Caetano, 1 de Agosto de 2019

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