Quem foi a “primeira avó” da Tuna Académica de Coimbra?

(texto de António José Soares, 1964)75_anos da TAUC 1964 AJS

É incontestável que, dentre os organismos estudantis de Coimbra, a Tuna Académica é que conta uma vida mais longa e continuada, pois pode afirmar-se que, desde 1888, tem mantido sempre a sua actividade como grupo musical formado por estudantes. Com o nome de «Academia Musical», «Estudantina» e depois «Tuna Académica» desde aquele ano que existe em Coimbra um conjunto instrumental de académicos, renovado de geração em geração, mas subsistindo sempre nas suas características essenciais.

Vulgarmente é reconhecido que o aparecimento deste grupo musical se ficou devendo ao estímulo provocado em Coimbra por uma «Estudantina de Santiago de Compostela» que visitara Portugal no Entrudo de 1888, e que dera aqui dois concertos no Teatro Académico, já ameaçado da demolição que em breve se consumaria.

Fosse para pagar a visita dos estudantes galegosfosse para organizar um agrupamento sucedâneo da Academia Dramática, que devido ao desaparecimento do teatro académico se transformara em Associação Académica (1), fosse pelo simples anseio de tocar em grupo, ou um pretexto de promover passeatas o certo é que o novo agrupamento dos estudantes se radicou entre a Academia, prestigiando-se de ano para ano e projectando até no estrangeiro o nome da Universidade de Coimbra.

Não se diga que a Estudantina Académica foi apenas devida à imitação do modelo espanhol, pois muito antes das visitas dos grupos galegos, existiram em Coimbra outros agrupamentos musicais de estudantes, com organização própria, autonomia administrativa e notável prestígio artístico.

Recordemos agora, talvez a primeira «avó» da Tuna Académica que se regia pelos Estatutos promulgados em Junho de 1848 e que se chamava «Assembleia Philarmónica de Coimbra».

O ultra-romântico João de Lemos, na Revista Académica escrevia assim, a propósito da fundação deste grupo: «Têm-se realizado muitas quimeras, têm-se demonstrado muitos absurdos, por este único meio — associação.

«Pois Coimbra também não ficou ociosa diante do grande princípio; nem devia ficar: — se dantes aqui se falasse dum teatro académico, fecharia toda a gente as mãos na cabeça e gritaria — quimera absurda. Se se dissesse que além do teatro haveria, e no mesmo edifício, uma associação onde se lessem todos os jornais e publicações do reino, muitos jornais e publicações estrangeiras, e uma bela orquestra que nos desse as melodias dos melhores cantores[autores?] da Europa, ninguém responderia senão — absurdo, quimera!

«E todavia a quimera realizou-se e o absurdo demonstrou-se. Ora os incrédulos tinham alguma razão, a palavra estudante trazia consigo ideias tão «heróicas» que não admitia muito estas coisas líricas»: estudante! Pois empresa em que eles entrem podia lá ter jeito? Tem, sim, senhores; aí está o Teatro Académico para o provar, é o terceiro do reino em magnitude, o primeiro, talvez, em declamação; aí está a Assembleia Académico-Philarmónica, com a sua casa de leitura variadíssima e com os seus concertos brilhantes.»

Em Maio de 1845, dava o jovem grupo um concerto musical no Teatro Académico e dias depois repetiu-se o espectáculo onde, além dos sócios, acorreram as suas famílias, convidados e muitas senhoras. E o mesmo João de Lemos continua: «…a casa parecia outra, tudo respirava mais graça depois que as graças ali vieram; até a música era mais sonora, mais grata ao ouvido, ou porque algum anjo a inspirava, ou porque os olhos estavam contentes. Onde faltam as damas, falta a beleza e onde esta falta, é imperfeita sempre a obra dos homens; não faltava pois nada, e a orquestra recebeu vivos e merecidos aplausos na execução do seu lindo e variado programa. Fazia gosto ver aquela escolhida reunião onde ao lado dos estudantes se assentavam dignidades académicas, civis e militares, e cidadãos dos mais conhecidos e estimados na cidade: era uma verdadeira festa, uma festa civilizadora. Presidiu a tudo bom gosto, regularidade e ordem; bem hajam os directores, bem haja esta Sociedade que assim prova que aquele «mau espírito» proverbial dos estudantes é já uma página do passado.»

O aplauso com que foi recebido o grupo após a sua primeira exibição pública, teria dado grande satisfação aos seus directores José Freire de Serpa que presidia e António Gonçalves Dias que servia de secretário e a todos os sócios executantes que eram todos académicos, com poucas excepções. Mas os fins bem explícitos desta «Assembleia Philarmónica» afastavam quaisquer possibilidades de questões entre os associados. Concertos periódicos para o sócio, «tendo sempre em vista o gosto e o adiantamento da música»; recreios honestos, como bailes, jogos de vasa e gabinete de leitura, segundo os usos e a prática das Assembleias das cidades cultas; e, cautelosamente, não era permitido celebrar objecto algum político.

Porém, depressa as lutas políticas do Cabralismo teriam perturbado a vida desta «Assembleia» que em Maio de 1848 resolve alterar os seus estatutos, o que, afinal, não evitou que depois de 1851 não se conheça mais qualquer actividade deste primeiro agrupamento musical dos estudantes de Coimbra.

Anos depois, ressurgem outros organismos semelhantes, algumas vezes misturando a música com actividades dramáticas, mas as intermitências verificadas não nos permitem estabelecer qualquer sequência continuada até chegarmos à «Estudantina» de 1888, da qual directamente derivou a actual Tuna Académica de Coimbra.

ANTÓNIO JOSÉ SOARES

75_anos da TAUC 1964 AJS_capa

Texto publicado em «75 ANOS DA TAUC», Coimbra 2 e 3 de Maio de 1964, composto e impresso nas OFICINAS DA ATLÂNTIDA, Rua dos Combatentes da Grande Guerra, Coimbra. É um pequeno livro (54 páginas) feito e publicado no âmbito das comemorações dos 75 anos da TAUC – 1964 . Este precioso documento contém:

  • Saudação aos antigos tunos – Polybio Serra e Silva, presidente da TAUC de 1955 a 1958
  • Programa das comemorações 2 e 3 de Maio de 1964
  • O deputado Augusto Simões prestou homenagem à Tuna Académica da Assembleia Nacional (30 de Abril de 1959)
  • Quem foi a “primeira avó” da Tuna Académica de Coimbra? – António José Soares
  • A estudantina de Coimbra – Eduardo Cerqueira
  • Subsídios para a história da Tuna – Francisco Alves Ferreira (regente de 1953 a 1961)
  • Carta aberta ao Director artístico da Tuna de Coimbra – E. Tavares de Melo
  • Quadras ao desafio pelos Dr.s Abel Poças e Polybio Serra e Silva – António José Soares
  • A minha Tuna – Francisco Alves Ferreira
  • A Orquestra de Câmara da TAUC – Francisco Alves Ferreira
  • Curriculum Vitae – António José Soares
  • Comissão executiva dos 75 anos da TAUC

Fica a promessa de disponibilizar online uma versão digitalizada deste livrinho.

AC, 21 de Dezembro de 2019

(1) Não é fácil entender esta frase de AJS, e trata-se, na minha opinião, de um erro ou de um lapso de memória. No início do ano lectivo de 1887/1888 surge a Associação Académica de Coimbra que é uma transformação, com alteração de estatutos, da instituição anterior, mas a sede continuou a ser o Teatro Académico, que foi mandado encerrar nesse ano lectivo, em Março de 1888, por se encontrar em más condições. Isto aconteceu na sequência do trágico incêndio no Teatro Baquet, no Porto, portanto, não foi devido ao desaparecimento do Teatro Académico que surgiu ou foi rebaptizada a AAC, foi antes porque novos vento sopravam na Academia. Com o nome AAC, a associação ainda funcionou uns meses no TA, mas na sequência desse desastre no Porto, o governo mandou encerrar e demolir o TA em Coimbra. A sede da AAC passou para o colégio da Trindade, que provavelmente não oferecia as mesmas condições, e isso, sim, concordo com AJS, terá ditado o fim da actividade orquestral dentro da associação de estudantes. Nesse contexto, a Academia Musical de Coimbra em Março de 1888 (logo depois rebaptizada Estudantina Académica/Conimbricense) dá início ao seus ensaios numa casa situada na actual Avenida Emídio Navarro.