Hymno Academico

Hymno Académico, oferecido à Academia de Coimbra, em Outubro de 1853, pelos estudantes José Augusto Sanches da Gama (letra) e José Cristiano O’Neill de Medeiros (música). (art.)

Música

Para ouvir, disponibilizamos uma versão digital desta transcrição para piano, publicada em 1895.

Clicar na imagem para ouvir e ver a partitura!

Em formato vídeo:

Letra

Verificamos, nos documentos aqui exibidos, que o primeiro verso apresenta alterações:
«Do trabalho affanoso nas lides» (1851),
«Do trabalho sedento na lide»
(1853),
«Do trabalho, na lide affanosa» (1895)
Não sabemos se as alterações foram feitas por iniciativa do autor…

A letra do Hymno Academico 1851, Fonte: Doc. na AAEC

A letra do Hymno Academico 1853. Fonte: BNP, http://purl.pt/14982/1/index.html#/1/html

Cesar das Neves, Cancioneiro de Músicas Populares contendo letra e música: collecção recolhida e escrupulosamente trasladada para canto e piano por Cesar das Neves, Porto, Cesar, Campos & C.ª, 1895, Volume II, pag. 174-177.


Hymno Académico [de Coimbra]

Do trabalho, na lide affanosa,
Doce esp’rança nos vem affagar:
Somos jovens, sentimos no peito
Santo amor da sciencia brotar.

O que valem riquezas da terra
Sem sciencia, no mundo, o que são?
Trabalhae que seus dons nos offerta
O trabalho com provida mão.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Recordemos os sabios famosos,
Que a sciencia nos vem apontar;
Que souberam, dos sec’los zombando,
Aos vindoiros seus nomes legar.

E attendamos que a terra orgulhosa,
A quem damos o nome de mãe,
Em seus filhos, que a vida lhe devem,
As mais caras esp’ranças detem.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Aurea estrella, de luz refulgente,
Aqui vem, no horisonte, luzir,
N’esta senda espinhosa da vida,
A mostrar—nos risonho porvir.

E seus brilhos á gloria nos chama,
Alto imperio, soberba, aqui tem:
E a sciencia, que a todos iliustra.
Sua luz diffundir em nós vem.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Os alentos que n’alma refervem,
Pela terra da Patria serão:
Ou da paz, no suave descanço,
Ou na guerra ao troar do canhão.

E da gloria, por fim, nós iremos
Doces risos, fagueiros, gosar:
Adornados co’as palmas virentes,
Que Minerva nos quiz dispensar.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Pesquisa e digitalização, iniciada no dia 15 de Junho de 2016

Adamo Caetano


César das Neves. Cancioneiro de Musicas Populares contendo letra e musica: collecção recolhida e escrupulosamente trasladada para canto e piano por Cesar das Neves, Porto, Cesar, Campos & C.ª, 1895, Volume II, pag. 174-177. Disponível online na Biblioteca Nacional de Portugal

Hymno Académico referido por Trindade Coelho em «In illo tempore»

Ref. feita por José Francisco Trindade Coelho (Direito na UC entre 1880/1881 e 1884/1885) em «In illo tempore»:
«Ora defronte do João de Deus, à entrada do Bêcco das Flores, onde todas as manhãs appareciam no chão boninas novas, como chamava o Camillo a certas indecencias que por alli se faziam, — morava então o Sanches da Gama, que era ainda estudante.
Era já o bon vivant que sempre foi: beiço sensual, ventre que tinha suas parecenças com o de Falstaff, um namorador de primeira ordem, e um comedor então de primeiríssima! Poetava. Foi elle que fez a lettra para o Hymno Académico, em competência briosa com outro estudante, um Zuzarte, cuja lettra foi regeitada pelo auctor da música, o célebre Medeiros que toda a vida se matriculou no 2° anno por gostar muito da capa e batina e não se dar mal com a Chimica, tendo inventado também, nas Mathematicas, uma trisecção do angulo muito patusca! O Medeiros, que tocava rabeca na perfeição, preferiu a lettra do Sanches da Gama, por parte de cunhados que já então eram; — mas depois, era de ouvir o Zuzarte, muito cáustico, dizer a todos que nâo entendia aquillo:
— Vejam vocês :
Do trabalho sedento na lide
Doce esp’rança nos vem afagar
E commentava :
— Que diabo quer dizer sedento?! — E virava a pergunta pelo forro: Sedento, que diabo quer dizer?!
E embirrava também com o segundo verso, por o Sanches lhe ter comido um e na palavra esperança, acrescentando que lhe não comera todas as lettras
— porque em summa esperanças eram esperanças, e só chouriços realidades !
No mais da lettra desfazia também o Zuzarte, muito picado !

Hymno Académico referido por Eça de Queiroz em «Os Maias»

Referência feita por Eça de Queiroz (Direito na UC de 1861 a 1866), no capítulo IV de «Os Maias»:
«Em Agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Celas. Afonso viera de Santa Olavia, Vilaça de Lisboa; toda a tarde no quintal, de entre as acácias e as bela-sombras, subiram ao ar molhos de foguetes; e João da Ega, que levara o seu ultimo R no seu ultimo ano, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas venezianas pelos ramos, trapézio e em roda do poço, para a iluminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Vilaça, enfiado e tremulo, fez um speech; ia citar o nosso imortal Castilho quando sob as janelas rompeu, a grande ruído de tambor e pratos, o Hino Académico. Era uma serenata. – Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das costas, correu à sacada, a perorar:
– Aí temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma – ou acabar de a matar, segundo as circunstâncias! A que parte remota destes reinos não chegou já a fama do seu génio, do seu dog-cart, do sebáceo acessit que lhe enodoa o passado, e deste vinho do Porto, contemporâneo dos heróis de 20, que eu, homem de revolução e homem de carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega…
O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A filarmónica, outros estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as árvores do quintal, na sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de doce, não cessou de estalar o champagne. E Vilaça, limpando a testa, o pescoço,abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo também:
– Grande coisa, ter um curso!»

TAUC regida por Christiano de Medeiros em 1900

O Correio de Leiria. Leiria, 13 Dezembro 1900, Ano 6
Tuna académica
No sábado último realizou-se a projectada excursão daquela briosa e simpática colectividade à nossa cidade.
As dezenas de capas negras que por aí ondearam, a vozearia alegre dos académicos e as notas festivas com que os leirienses timbraram em receber a juventude coimbrã, imprimiram a esta terra um aspecto animado, entusiasta. Para nada faltar a um concerto de tantos júbilos e à cativante expansão dos moços académicos, o sol irradiando das alturas em toda a pujança do seu fulgor ofereceu-nos um dia belo, esplendoroso, confortável.
Depois das 9 horas da manhã, a «Tuna» que havia sido esperada na gare da estação pelos alunos do lyceu e diferentes associações, deu entrada em Leiria, percorrendo as principais ruas acompanhada de numeroso povo, que a vitoriava ininterruptamente ao passo que as damas nas janelas também a vitoriavam, espargindo sobre seus membros pétalas de flores.
Além dos executantes da «Tuna Académica» vieram também de Coimbra diferentes estudantes de todas as faculdades universitárias e do lyceu daquela cidade.
Depois da «Tuna» recolher ao Hotel Liz, onde se hospedou, os académicos espalharam-se por diferentes pontos dignos de visita, e à hora da música congregaram-se no jardim público passeando uns, estadeando outros nos bancos e até nos canteiros, formando dóceis para se abrigarem dos raios solares com as suas capas suspensas na rameada das árvores a que o inverno há roubado as folhas.
A banda regimental começou o seu concerto pelo hymno académico; às primeiras notas desferidas, os estudantes correram pressurosos de todos os pontos do jardim a rodearem o coreto e ao finalizar o hymno romperam numa ovação estrepitosa, prolongada, erguendo muitos vivas à banda, ao seu regente, ao regimento de infanteria 7, ao exército, etc.
À noite, antes de principiar o espectáculo, os académicos percorreram as ruas em marcha aux flambeaux acompanhados pela «Sociedade Artística Musical» que executava o hymno da Carta, quase abafados pelos brados veementes de todos os rapazes que prestam culto à deusa Minerva. As damas que apareciam às janelas eram saudadas delirantemente, sendo-lhes arremessadas as capas, como se por meio delas os estudantes quisessem enviar todo o calor da sua alma, todo o sentir do seu peito.
Depois das 9 horas com um enchente colossal como poucas vezes temos visto no theatro D. Maria Pia, principiou o sarau, que decorreu animadíssimo, sendo impossível traduzir todas as impressões que ali nos agitaram em gestos do mais requintado entusiasmo.
Ao levantar do pano, surgiu no palco a «Tuna Académica» tendo à frente o seu hábil regente, sr. Francisco de Lima Macedo, um artista de raça, que em Coimbra goza dos maiores créditos.
O hymno académico foi ouvido de pé por todos os assistentes, destacando-se nos camarotes os vultos gentis das nossas conterrâneas ostentando primorosas toilettes.
Todos os números musicais foram executados com a máxima correcção e bom gosto, arrancando aplausos sinceros.
Na parte dramática, o académico Raul d’Abreu recitou com fina graça a cena cómica «Aldighiere Junio» e a cançoneta «Sol-lá-si-dó». A pedido recitou a poesia «Lágrima», de Guerra Junqueiro e o monólogo «Ra…», revelando uma vocação extraordinária para a arte cénica.
Foram admiradíssimos também os trabalhos de argolas por Pompeu Seabra.
O sr. dr. Medeiros, digno professor do lyceu desta cidade e autor do Hymno Académico, foi chamado ao palco, recebendo uma ruidosa ovação da juventude académica.
Dum dos camarotes, o aluno do lyceu, Ivo, proferiu um pequeno mas bem elaborado discurso de saudação aos seus camaradas conimbricenses.
A academia leiriense ofereceu à «Tuna» um quadro com a fotografia do nosso castelo, tendo um dos lados um formoso laço de seda com dedicatória.
A «Serenata Colliponense» também ofereceu para o estandarte da «Tuna» uma larga fita de moirée, com dedicatória.
Findo o espectáculo, ainda diferentes grupos de estudantes percorreram as ruas em serenatas, dedilhando e cantando maviosos fados e canções coimbrãs.
No comboio da 1 hora da tarde de domingo os nossos alegres hóspedes recolheram à lusa Athenas, deixando entre todos os leirienses as mais perduráveis recordações.
Que o tocar monótono da cabra e a massadoria das sebentas lhes seja adoçada com a lembrança dos aplausos que receberam na sua breve excursão – são os nossos mais ardentes votos.