#10 A TAUC é a Estudantina de 1888

Caros Tunos TT,

eu sei que há textos que dizem que a TAUC é «herdeira da Estudantina de 1888» (A.J.Soares) e que esta é a predecessora da outra, mas na minha opinião isso não deveria ser dito assim, porque é uma expressão passível de diferentes níveis de interpretação e não traduz o que se passou. Porque isso equivale a dizer que a Tuna de 2019 é a herdeira da de 1996. Ora, faz realmente sentido afirmar tal coisa? Não me parece.

A TAUC é a Tuna de 1888. É a “mesma” instituição! Mais do que uma questão, formal e legal, de constituição, é uma questão de IDENTIDADE e inequívoca continuidade, algo que foi perfeitamente claro e trivial para os primeiros que a constituíram e dela fizeram parte, portanto isto é o que devemos afirmar:

A TAUC é Academia Musical de Coimbra de 1888;

A TAUC é a Estudantina Conimbricense de 1888;

a TAUC é a Tuna Académica de Coimbra (TAC) de 1898;

a TAUC é a TAUC.

Os tunos de 1888 deixaram preto no branco que a Tuna nasceu Estudantina (em rigor, nasceu Academia Musical de Coimbra) e eles sempre lhe chamaram Tuna e sempre se afirmaram TUNOS! Exemplos: Bráulio Caldas (1), Arthur Pinto da Rocha, António Maria Fructuoso da Silva, etc… deixaram testemunhos inequívocos.

Mas ah e tal, lendo a BREVE HISTÓRIA DA TUNA ACADÉMICA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, de António José Soares, salta à vista que entre 1891 e 1894 não aparecem referência nos jornais, e portanto “não aconteceu nada”, há um «hiato», «uma descontinuidade», «um interregno»!  … A sério? Acham que não aconteceu nada?!

Meus caros Tunos TT,

1.º estaríamos bem lixados se SÓ nos orientássemos pelo que é publicado nos jornais e não consultássemos outras fontes, fazendo o necessário confronto. (2)

2.º a Breve história da TAUC, da autoria de António José Soares, é – tal como ele teve o cuidado de escrever – BREVE. (3) Ele não se alonga sobre esse período de 1891/92 a 1893/94, e provavelmente não aprofundou a investigação nesses anos, porque não viu aí interesse, até porque A. J. Soares sabia o seguinte:

Texto publicado em 1906 no… NOT YET! 🙂

ou seja, A. J. Soares, no mínimo, sabia perfeitamente que foram elementos da fundação que reorganizaram a Tuna em 1893/1894. Ora tudo isso foi do conhecimento comum entre os estudantes e respectivas famílias, na Coimbra dos finais do séc. XIX mas depois, nos finais do séc. XX, gerou-se a dúvida e o equívoco deliberado: «Um grupo de iluminados entre tremoços e pevides decidiu recuperar a velha estudantina» e afirmar isso mesmo na apresentação da Estudantina Universitária de Coimbra da Secção de Fado da AAC. Depois de séria contestação por parte da TAUC, optaram por «recuperar o espírito da velha estudantina»… E qual seria, afinal, esse imaginado «espírito da “velha” Estudantina Académica de Coimbra» que eles queriam recuperar?? Fazer propaganda republicana e implantar a República?!? … Em 1984!?!

Sintetizar o que se passou na Academia de Coimbra durante aqueles 3 anos lectivos – 1890/1891, 1891/1892 e 1892/1893 – é tarefa para historiadores. Uma simples cronologia de acontecimentos para contextualizar o reboliço político e social, e o papel dos estudantes de Coimbra, em particular, e dos elementos da Tuna, ainda mais em particular, eu diria que já enche muitas páginas.

1896_defensor_do_povo_irmaos_unidos_27_fevereiro_1896

Defensor do Povo, n.º 87, Anno 1.º, 27 de Fevereiro de 1896, pág. 3. (4)

Vejam o caso da AAC: foi encerrada em 1892 e andou underground uns 4 ou mais anos; voltou em 1895 sob o nome «Irmãos Unidos» e posteriormente repegou o nome AAC. Porquê? Sumariamente: manifestações contra o ultimato inglês de Janeiro de 1890, revolução no Porto de 31 de Janeiro de 1891, agitação social e política e crise económica, perseguições e repressão, uma greve na UC em Maio 1892, …

Quando se pergunta: «Em que ano foi fundada a AAC?» Toda a gente “sabe” e responde: «1887!». Alguém alude ao hiato ou interregno, aproximado, de 1892 a 1898? (ouvem-se os grilos na noite!) Será porque conhecem ou porque desconhecem a história da AAC? (aquela que ainda está por escrever…)

Então e no caso da TAUC? o pseudo “interregno” de 1891/92 a 1893/1894, autoriza alguém, mais de 100 anos depois, a insistir numa tentativa (condenada a um ridículo falhanço) de dissociar a TAUC da sua inequívoca origem?!? Com que intenção? Justificar pretéritos abusos da Memória? Retirar o título de “primeira tuna académica portuguesa”?! (LOL)

Em 2015 os incansáveis pesquisadores José e António Nascimento, instigaram-me a provar que a Tuna/Estudantina de Coimbra de 1894 era a continuidade da Estudantina de 1888.

– Mas vocês duvidam?!! – perguntei.

– Queremos provas! Muitas! Tem de ser irrefutável!

– Ahh OK!…

Depois de alguns meses, decidi fazer o inverso, isto é: abracei o desafio de tentar provar que o grupo de 1894 não teria qualquer relação com o de 1888. É isso mesmo que leram!(5)

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“O Commercio de Coimbra”, domingo, 27 de novembro de 1892, II anno, N.º 126, pág. 2

Estudei a bandeira, as fitas, o património material; as notícias, os documentos, os testemunhos, os relatos escritos e as narrativas orais; o modelo da organização do grupo, o repertório, o maestro, etc, etc, e tudo reunido e confrontado, demonstra a continuidade, mas todos esses aspectos são afinal pormenores… porque muito antes daquele reencontro com a “chave” da fotografia de 9 de Dezembro de 1888, percebi o que é realmente a TUNA… Numa das noitadas de pesquisas exclamei muito calmamente para mim mesmo:

«São as pessoas, estúpido!».

Nessa noite, em 2015, antevendo já algumas das possibilidades que resultariam da investigação incidir sobre as pessoas, enviei um email a um entusiasta da genealogia perguntando-lhe se podia confirmar que José Soares da Cunha e Costa (secretário da estudantina de 1888) era irmão de João Evangelista da Cunha e Costa (secretário da estudantina em 1896 e que entrou na UC em 1891)… Foi a estrelinha da TAUC!!! Jorge Resende tornou-se a 4.ª coluna central do Arquivo Digital da TAUC. (6) Abriram-se caminhos para os baús e para novas descobertas.

E repeti tantas vezes: «São as pessoas, estúpido!». As pessoas são os principais elos desta corrente centenária. E a TAUC é uma grande família!

E indo por aí, meus caros Tunos TT, a TAUC é uma autoestrada desde 1885 até ao presente! (7)

A continuidade da TAUC assenta na filogenia, no DNA, na identidade corporativa daquele grupo de PESSOAS.

A TAUC é a Estudantina de 1888.

AC, Coimbra, 6 de Junho de 2019

(revisto no dia 30 de Novembro de 2019)

AC in Epístolas aos Tunos de Todos os Tempos, 10. ª epístola.

 

(1) Voz do Porvir, n.º 1 Coimbra 7 de Março de 1897 Tunas Académicas
«Em digressão por Villa Nova de Famalicão, Ponte do Lima e Guimarães, foi a nossa tuna despertar a alegria durante o Carnaval, animando com seus chistes a monotonia do tempo. Em Vizella foi-lhes feita uma brilhante recepção pelo sr. dr. Bráulio Caldas, que assim mostrava lembrar-se ainda do seu antigo génio académico.»
(2) É impressionante e assustadora a quantidade de erros, imprecisões, e equívocos involuntários (não falemos dos “pontos de vista” e das mentiras deliberadas), que saem escritos nos jornais. Mesmo nos nossos dias!
Há tempos dizia-me um amigo:
– Eu devia enviar desmentidos para o jornal porque se um incauto for ler estes artigos daqui a 20 anos, vai achar que aqueles textos, escritos pelo nosso contemporâneo, traduzem a realidade, e que toda a gente concorda com estas leituras e opiniões.
– Pois devias! – disse eu. Porque não o fazes?
– É uma chatice. Tempo, trabalho e aborrecimentos.
– Pois é, mas daqui a alguns anos um filho teu terá 20 vezes mais trabalho para conseguir provar um contrário. Há-de vir um iluminado com essa colecção de artigos na mão, afirmar que é tudo verdade e ver significados nunca sonhados, 20 anos antes, nem pelo autor dos textos.
(3) António José Soares fez um trabalho colossal – durante largos anos pesquisou informação nos jornais, compilou milhares de textos, etc, ainda na era pré-computadores.
(4) «A partir da sua “fundação” republicana, de 1887, a história da AAC passou a ser contada pelas vozes dos vencedores, como gesta antimonárquica. Ironia do destino, nos difíceis anos de 1890, quando o governo mandou encerrar a AAC, as estratégias de sobrevivência voltaram a passar pela nomenclatura Clube Académico de Coimbra.» AMNunes, Ver: http://guitarradecoimbra.blogspot.com/2006/11/cento-e-dezanove-velas-para-soprar.html
(5) Rapidamente concluí que afinal não seria difícil provar e demonstrar que a TAUC é a Academia Musical de Coimbra de 1888 / Estudantina Académica Conimbricense de 1888! Difícil (impossível mesmo, para qualquer académico honesto) seria provar o contrário! Fui pelo caminho difícil! E tem sido um “falhanço total”! 🙂
(6) as 4 colunas centrais na investigação: irmãos José e António Nascimento, António Nunes, Jorge Resende et moi-même, Adamo Caetano.
(7) Todas as autoestradas têm as suas irregularidas e os seus altos e baixos, e algumas têm passagens underground.